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Início dos trabalhos do Roteiro para a Neutralidade Carbónica tem formalmente lugar amanhã na Culturgest.

Portugal em 2050

Imaginemos Portugal em 2050:

  •  toda a eletricidade é proveniente de fontes renováveis, há exceção de alguns setores, onde uma pequeníssima parte da energia é proveniente do uso de combustíveis fósseis;
  •  o consumo é predominantemente local e de produtos com reduzida pegada carbónica;
  •  a mobilidade está assente no transporte coletivo movido a eletricidade e os veículos existentes são elétricos ou a hidrogénio (produzido a partir de fontes renováveis, também com uma eventual contribuição de combustíveis líquidos sintéticos sem estarem praticamente associados a emissões de carbono);
  •  há novos materiais a serem utilizados em diversos setores que anteriormente tinham elevadas emissões de gases com efeito de estufa;
  •  há um forte investimento na reparação de equipamentos e o encaminhamento para – reutilização e reciclagem é extremamente elevado, em linha com uma economia circular;
  •  a qualidade de vida dos portugueses está melhor comparativamente com a atual, estando todos conscientes em basear o seu consumo na suficiência e não no desperdício.

Esta visão, que poderá parecer utópica, deverá corresponder à realidade de uma sociedade neutra em carbono e revela o grau de transformação requerido, nomeadamente à escala de Portugal, mas também à escala da Europa e do mundo.

O que significa o país ser neutro em carbono

Discutir o que significa ser-se um país neutro em carbono não é simples – podemos considerar a contabilização efetuada à escala do país de acordo com as regras definidas internacionalmente ou podemos fazer o balanço integrando as emissões dos produtos importados e exportados, entre outras metodologias. Na prática, trata-se de fazer um balanço entre as emissões de gases com efeito de estufa causadoras do aquecimento global e consequentes alterações climáticas de um país e a capacidade para reter emissões dessa mesma natureza.

Admitindo que o objetivo é conseguir atingir a neutralidade no que respeita às emissões reportadas por Portugal à Convenção das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, 2015 é o ano mais recente, com aproximadamente 69 milhões de toneladas, se não considerarmos os sumidouros, isto é, a capacidade de retirarmos carbono da atmosfera, nomeadamente através da floresta. Se for considerada a componente de uso do solo e mudança do uso do solo e floresta, tendo em conta que são aproximadamente 10 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano (mais precisamente 9850 milhares de toneladas/ano entre 2010 e 2015, de acordo com o inventário de emissões de Portugal), há um valor líquido de aproximadamente 60 milhões de toneladas por ano de emissões a reduzir, até 2050. Simplificando, representa passar de cerca de 6 toneladas por habitante por ano para zero.

A área da energia é a que representa a maior componente de emissões, sendo a produção de eletricidade atualmente responsável por aproximadamente 25% do total de emissões (devido ao uso de carvão e gás natural), emitindo o setor dos transportes um valor semelhante. Por outro lado, as quantidades de carbono retiradas no âmbito do uso do solo e floresta são muito influenciadas pelos fogos florestais. Em anos como os de 2003 e 2005 não houve uma remoção de carbono, algo que certamente acontecerá também neste ano de 2017.

No futuro poderão existir opções tecnológicas que permitam a retirada de carbono da atmosfera, mas por agora são muito incertas, pelo que o investimento deverá ser em medidas viáveis e resilientes.

Uma enorme transformação da sociedade portuguesa

O desafio de Portugal ser neutro em carbono em 2050 tem uma relação profunda com as políticas europeias, mas também com as opções tomadas com efeitos a médio e longo prazo. Estas opções a implementar nos próximso anos, devem ser definidas por este Roteiro.. Não estamos perante um contexto fácil, dada a própria influência das alterações climáticas, tornando mais prováveis fogos florestais de grandes dimensões e períodos de seca mais frequentes e violentos, com redução da produção hidroelétrica. No entanto, a par das políticas públicas, é ao nível das opções de consumo que é fundamental fazer a mudança, o que implica uma enorme intervenção e participação das populações.

O objetivo de ter um país neutro em carbono depende obviamente da realidade de cada um, sendo que há países com grandes áreas florestais face à população que têm e ao uso de combustíveis fósseis que fazem, e, por isso, afirmam estarem perto deste objetivo ou já o terem atingido. O Butão é um dos exemplos à escala mundial que se afirma já como um país que retém mais carbono do que emite. A Costa Rica também tem um objetivo de neutralidade carbónica, havendo na Europa os exemplos de países como a Noruega (apesar de o fazer com base em investimentos de retenção de carbono fora do país), ou ainda a Suécia, que definiu o objetivo de atingir a neutralidade carbónica em 2045.

ZERO elogia posicionamento do Governo, dispõe-se a colaborar e estará presente no início dos trabalhos

Desde a sua fundação, há cerca de dois anos, a ZERO considerou que este objetivo de caminhar para um país neutro em carbono deveria ser assumido por Portugal. Foi com enorme satisfação que recebemos o  anúncio desta meta pelo Primeiro-Ministro, António Costa, na última Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas em novembro do ano passado em Marraquexe.

A ZERO está fortemente empenhada em colaborar com a administração, os outros atores chave que irão desenvolver o roteiro ao longo dos próximos 18 meses. Amanhã de manhã, dia 11 de outubro, a ZERO, através de Susana Fonseca, estará presente na sessão de apresentação a decorrer na Culturgest.

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