Iniciativas de Transição para Sociedades Sustentáveis

Enquadramento

Vivemos numa época marcada pelo consumo como elemento estruturante das sociedades mais desenvolvidas. Esta sociedade de consumo induz a ineficiência no uso dos recursos naturais e a procura do supérfluo que conduz ao desperdício e assenta, em larga medida, na noção de que tudo é descartável e que através da soluções como a tecnologia ou a reciclagem tudo poderá ser resolvido.

Ao mesmo tempo, as consequências a curto, médio e longo prazo começam a tornar-se evidentes, numa sociedade que caminha para o desastre ecológico e que faz perigar a sobrevivência das gerações vindouras, ao promover a degradação da biosfera, a depauperação dos recursos naturais e o aquecimento do planeta.

Apesar deste cenário real mas pouco animador, surgem alguns sinais de esperança, como o Acordo de Paris, adoptado na COP21 em dezembro de 2015, havendo a expectativa de que este seja um ponto de viragem na resposta mundial às alterações climáticas, pois, pela primeira vez, todos os países do mundo comprometeram-se a travar as suas emissões de gases de efeito de estufa, a reforçar a resiliência climática e a juntarem-se numa causa mundial, em torno de um bem comum.

Em Paris, os governantes demonstraram que, agindo em conjunto, conseguem atingir objetivos que nunca alcançariam sozinhos e o mundo tem agora um acordo universal, justo, flexível e de longo prazo, para limitar o aumento global de temperatura bem abaixo dos 2° Celsius, tendo como meta o limite de 1,5° C, em relação à era pré-industrial.

Porém, estas decisões vão obrigar a um profunda reflexão sobre o que queremos para as nossas sociedades, já que as questões climáticas nos vão obrigar a alterar os nossos estilos de vida e a recentrar muitas das decisões no plano local – com impactes significativos na forma como nos movemos, nos alimentamos, nos vestimos, no que fazemos, nos empregos que temos e até na forma como ocupamos os tempos livres. Aqui, as autarquias e as comunidades locais vão ser chamadas a desempenhar um papel cada vez mais importante na procura da sustentabilidade à escala planetária.

Com base em pressupostos centrados na identificação de um conjunto de problemas de sustentabilidade nas economias e nas sociedades, os quais continuarão a ser importantes fontes de emissões de gases com efeito de estufa, caso não se adoptem modelos que orientem a transição para um ecossistema humano hipocarbónico, foi pensado o projeto Ecocomunidades

O objeto central do projeto Ecocomunidades é promover estilos de vida compatíveis com uma sociedade pós-carbono, intervindo em áreas distintas, visando a redução de emissões de gases responsáveis pelo efeito de estufa (CO2, CH4, NOx), uma melhoria da eficiência no uso dos recursos em todos os sectores e a utilização de um conjunto de medidas destinadas a incentivar alterações nas práticas quotidianas dos cidadãos, de forma a alcançar um conjunto de objetivos:

  • promover a redução de consumos e a eficiência energética nas habitações, bem como o investimento colectivo e individual em energias renováveis, estimulando a microgeração e o auto-consumo;
  • incentivar a mobilidade sustentável, através do uso diário dos transportes públicos/colectivos, do recurso a deslocações a pé e de bicicleta (também como complemento a deslocações multimodais) e à progressiva substituição de veículos movidos a combustíveis de origem fóssil por veículos movidos a energia eléctrica;
  • incutir princípios de poupança de água e reutilização da mesma;
  • fomentar a transição de um modelo linear, baseado no pressuposto de que os recursos são abundantes, estão disponíveis e de que é barato deitá-los fora e substituí-los por outros (extrair-fabricar-consumir-rejeitar), para um modelo circular que favoreça a redução, a reutilização, a reparação e a reciclagem dos materiais e produtos existentes, prolongando o seu ciclo de vida útil;
  • estimular práticas generalizadas que visam a prevenção da produção de resíduos e a eliminação progressiva da deposição em aterro de resíduos recicláveis, em particular da fracção orgânica, através da educação para um consumo sustentável e da generalização da prática da compostagem e da vermicompostagem domésticas;
  • consciencializar para que se caminhe para uma conciliação entre as dietas humanas e uma agricultura que copie e optimize os processos ecológicos que ocorrem nos ecossistemas naturais, nomeadamente através da adopção de dietas equilibradas, com o surgimento ou da consolidação de cadeias curtas e com a interligação da produção e do consumo de alimentos com a produção e utilização de fertilizantes orgânicos gerados localmente.

 

Na prática, pretende-se conceber e testar uma estratégia hipocarbónica, testando-a em pequenas comunidades locais – designada de ecocomunidades, ao nível dos municípios ou de comunidades intermunicipais, com vista à sua futura replicação em toda a sociedade, alicerçada na promoção de um conjunto de práticas e comportamentos diários com impactes importantes, mas devidamente acompanhados e contabilizados, focalizados na prevenção e redução de consumos e na eficiência do uso de recursos.

Ao longo de um período de 3 anos, numa interação permanente com os cidadãos/famílias agregados nas ecocomunidades, serão desenvolvidas diversas iniciativas, todas integradas e articuladas entre si, de promoção da informação e sensibilização para a adopção de estilos de vida hipocarbónicos numa lógica de “pensar global, agir local”, resultando daí uma estratégia local replicável a nível nacional.

Os destinatários deste projeto são os Municípios portugueses, as Comunidades Intermunicipais e as Empresas, que, no âmbito da sua responsabilidade social, queiram sensibilizar os seus colaboradores ou mesmo os seus clientes para a necessidade de alterarmos as nossas atitudes e comportamentos face ao uso dos recursos.