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ZERO considera que o roteiro de neutralidade carbónica de Portugal para 2050 é fundamental para cumprir Paris.

O Relatório Especial do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) hoje divulgado na Coreia do Sul foi solicitado e aprovado por todos os governos do mundo, e traz novas evidências de que muitas das terríveis consequências futuras do aquecimento global podem ser evitadas, respeitando este limite de 1,5ºC. O relatório também confirma que ainda é possível manter o aumento de temperatura global abaixo deste limite, mas requer uma mudança rápida e de longo alcance em todos os sectores da economia.

O Relatório Especial do IPCC sobre o aquecimento global de 1,5°C é o mais importante relatório de ciência climática da década. Ele oferece a avaliação mais abrangente e inequívoca dos impactos do aquecimento global em 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, e as medidas necessárias para ficar abaixo deste limiar. Isso prova, além de qualquer dúvida, que ficar abaixo de 1,5°C irá reduzir significativamente os impactos adversos das alterações climáticas para os países mais pobres e vulneráveis, mas também para todos os países europeus.

O relatório especial do IPCC vai influenciar, de forma extremamente importante, a tomada de decisões de política climática internacional, ao nível da UE e dos países ao longo dos próximos anos.

URGÊNCIA

O organismo científico mais importante do mundo na área do clima confirmou que o aquecimento climático se encontra, atualmente, 1°C acima dos níveis pré-industriais. Este aquecimento já afeta todos os países e regiões do mundo, tornando os eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e severos. Os cientistas descobriram que o efeito das alterações climáticas mais do que duplicou a probabilidade de graves prejuízos, devido à severa onda de calor que afetou este ano a Europa e outras regiões do mundo. Estes eventos extremos mostram que as alterações climáticas não são algo que acontece apenas fora da Europa ou num futuro distante, mas afeta todos aqui e agora.

O IPCC mostra que os prejuízos futuros dependerão muito da rápida redução das emissões de carbono e, portanto, do nível de aquecimento que podemos evitar no futuro. As ondas de calor semelhantes às testemunhadas durante o verão deste ano, mas também a ocorrência de grandes fogos florestais, chuvas fortes, inundações e tempestades são esperados e serão cada vez mais frequentes e prejudiciais, se as temperaturas globais continuarem a subir. Qualquer nível de aquecimento traz impactos adversos, mas existe uma diferença substancial entre os limiares de aumento de temperatura de 1,5°C e de 2ºC, e temperaturas para além de 3°C, o caminho atual em que o planeta se encontra.

O relatório do IPCC constitui um forte argumento para manter o aumento de temperatura abaixo de 1,5°C, trazendo evidências de que muitas das consequências nefastas do aquecimento futuro podem ser evitadas, respeitando este limite. Um aumento de meio grau de temperatura faz toda a diferença. Manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C significa uma diminuição das pessoas expostas a ondas de calor, chuvas fortes, secas, tempestades e inundações. O limiar de 1,5°C irá poupar a maioria das espécies de plantas e animais das consequências das alterações climáticas. Comparado com o limiar de 2°C, manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C significará que o aumento do nível do mar poderá ser 10 cm abaixo do esperado até 2100, poupando as habitações de milhões de pessoas que vivem em zonas costeiras ou ilhas. 

O limiar de 1,5°C também significa ser possível evitar uma cascata de pontos de rutura, tais como a perda de gelo polar, o que traria mudanças abruptas e irreversíveis para a sobrevivência. Poderia ainda reduzir de forma significativa os riscos, especialmente para os países com menos recursos económicos e as comunidades que vivem na pobreza, e que estão na linha de frente das alterações climáticas. Para muitos deles, é a diferença entre a vida e a morte. 2°C já não pode ser considerado como um limite de segurança ou aceitável.

Manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C é um objetivo no melhor interesse de todos os europeus. Sendo um continente densamente povoado, os últimos verões quentes com ondas de calor atingiram a Europa com picos nas taxas de mortalidade. Se o aquecimento global se mantiver entre os 2°C e 1,5°C, significaria que menos europeus seriam expostos ao calor extremo, reduziria os riscos de seca, escassez de água e de alimentos na Europa Central e na região mediterrânica. Nos Alpes e na região boreal, ajudaria a evitar mudanças dramáticas para o ambiente natural, as pessoas que habitam estas regiões, o comércio e a indústria.

Manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C também irá reduzir significativamente as consequências das alterações climáticas em todos os sectores da sociedade e da economia. As alterações climáticas poderão levar à perda de vidas e meios de subsistência, diminuir o acesso a água potável e alimentos, ameaçar o turismo, prejudicar a saúde, causar prejuízos à indústria, produção de energia e infraestruturas de transportes, limitar o crescimento económico, causar extinções em massa de espécies e contribuir para a pobreza, os conflitos e as migrações. As alterações climáticas já estão a forçar milhares de pessoas a deslocarem-se de suas casas e limitar o aquecimento global a 1,5°C irá minimizar o risco de migrações no futuro.

SOLUÇÕES

Manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C requer uma mudança sem precedentes, rápida e de longo alcance, em todos os sectores (energia, uso do solo, urbano e indústria). Ainda é possível, mas somente se os decisores políticos agirem agora. O objetivo 1,5°C não deixa espaço para atrasar a ação. Precisamos de fazer a transição da mudança incremental para a mudança transformacional. Essa tarefa pode ser esmagadora às vezes, mas o relatório do IPCC traz esperança. É possível criar um futuro mais seguro e próspero, se trabalharmos juntos para repensar a forma como organizamos as nossas sociedades.

É preciso fazer mais do que já está provado que funciona: o que significa passar para um sistema de energia 100% renovável, acelerando a substituição de toda a energia poluente, começando com o carvão, pelas fontes de energia renovável mais ​​sustentáveis, ​​como a eólica e a solar. Significa intensificar os investimentos em eficiência energética, produção industrial e consumo mais limpos, parar imediatamente os investimentos em infraestruturas baseadas em combustíveis fósseis para os sectores da produção de energia e transportes, e proteger e restaurar ecossistemas naturais, como as florestas. Também serão necessárias mudanças profundas de estilo de vida, incluindo a alteração para uma dieta mais saudável e equilibrada e usar modos de transporte mais limpos. Será necessário ir além da dependência de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para novas políticas económicas que criam bem-estar para todos, respeitando os limites do planeta.

Sem dúvida, os benefícios são muito superiores aos custos. Para além de evitar um desastre climático, o investimento na ação climática constitui uma grande oportunidade para a economia europeia e para os seus cidadãos. Será possível modernizar o sistema de transportes e produção de energia, melhorar a independência energética, despoluir o ar, melhorar o uso do solo, criar empregos e tornar as cidades mais limpas, mais seguras e mais sustentáveis. Irá formar uma base sólida para a prosperidade partilhada e a estabilidade financeira, e contribuir diretamente para a realização dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Há um forte impulso para manter o aumento da temperatura abaixo de 1,5°C, o que nos dá esperança para um futuro melhor. As empresas europeias, grupos de investidores, autoridades locais e regionais e grupos da sociedade civil estão na linha da frente, convidando os líderes da UE para acelerar a transição para uma Europa de carbono zero em linha com o limite de 1,5°C. É o momento de exortar os líderes políticos a agir, seja através de manifestações públicas ou ações legais. Cada vez mais os líderes da UE e de outros países estão a trabalhar juntos para colocar o mundo num rumo compatível com 1,5ºC. Existem sinais por todo o mundo de que uma transição global de energia está no bom caminho e imparável: no desenvolvimento das energias renováveis, no declínio do carvão ou no aumento da ação climática liderada pelas cidades, regiões, comunidades locais, investidores e empresas.

RESPONSABILIDADE

Há uma lacuna catastrófica entre os planos dos governos e o que precisamos fazer para que o aquecimento global fique abaixo de 1,5°C. O Acordo de Paris, adotado em 2015, aumentou a ambição para os objetivos globais de temperatura e comprometeu todos os países a prosseguir os esforços para limitar o aumento da temperatura em 1,5°C. Mas as contribuições apresentadas nas conversações de Paris, incluindo o compromisso da UE de reduzir as emissões em pelo menos 40% até 2030, só iria manter o aquecimento global em cerca de 3°C, na melhor das hipóteses. O relatório do IPCC mostra que, se as emissões continuarem a seguir a tendência atual, o aumento de temperatura será superior a 1,5°C, por volta de 2040.

Os países devem comprometer-se a fortalecer as suas metas climáticas, a atingir em 2030, até 2020, para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C. O relatório do IPCC mostra que o ritmo das reduções de emissões, na próxima década até 2030, vai fazer ou quebrar as perspetivas de manter o aumento da temperatura abaixo de 1,5°C. Os governos do mundo, incluindo a UE, solicitaram um relatório especial do IPCC em Paris, e agora devem utilizar as suas descobertas para se comprometerem a intensificar os seus objetivos climáticos, o mais tardar na COP24. Alguns Estados-Membros da UE, como a Holanda e a Suécia, apelaram recentemente para que a meta climática da UE em 2030 fosse aumentada para, pelo menos, 55%.

Precisamos reduzir drasticamente as emissões para alcançar emissões líquidas zero em meados de século, a nível global e em 2040 na Europa. A Comissão Europeia tem de garantir que a sua nova estratégia climática de longo prazo, a ser apresentada em novembro, reflete a urgência da ação consagrada no relatório do IPCC, consistente com o limite de aquecimento global de 1,5ºC do Acordo de Paris e estimular a transformação da sua economia em grande escala. Os líderes europeus têm uma janela de oportunidade, ainda que esta possa fechar rapidamente, para mostrar a sua liderança, combinando ação climática da UE com a escala do desafio.

A UE também precisa aumentar o seu apoio financeiro para a adaptação nos países mais pobres e mais vulneráveis ​​que jáestão a sofrer os impactos das alterações climáticas. Apoiar a adaptação climática é efetivamente apoiar a sua sobrevivência e capacidade de prosseguir um desenvolvimento próspero e sustentável.

Mais ação climática, já

Francisco Ferreira, presidente da ZERO, considera que: “O relatório reforça a necessidade de cada um dos países, incluindo Portugal, ir muito mais além e mais depressa em relação ao atualmente previsto. O roteiro para a neutralidade carbónica em 2050 que o governo está a preparar é uma oportunidade única que tem de ser concretizada pelos próximos governos, num consenso alargado de todas as forças políticas e assumido por toda a sociedade. Portugal é dos países europeus mais afetados pelas alterações climáticas e não pode falhar uma transição para 100% de energias renováveis e uma rápida descarbonização dos transportes, entre outras medidas.”

Na véspera da reunião dos Ministros do Ambiente da União Europeia (UE) que terá lugar a 9 de outubro no Luxemburgo, na qual se espera que seja adotada a posição da UE na próxima Cimeira do Clima das Nações Unidas (COP24), Wendel Trio, diretor da Rede Europeia para a Ação Climática (CAN-Europe) de que a ZERO faz parte disse: “A ciência trouxe-nos uma mensagem de urgência e esperança. É claro que um aquecimento superior a 1,5°C resultará em eventos climáticos cada vez mais extremos. Estes, por sua vez, irão expor-nos a maiores secas, escassez de alimentos e crise económica. Este relatório traz ao mundo uma réstia de esperança: de que ainda temos uma possibilidade de manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C, com as soluções que estão ao nosso alcance e que irão ajudar a construir uma Europa mais segura, mais próspera.”

Wendel Trio acrescentou: “Os cientistas do IPCC estão a enviar esta forte mensagem, em antecipação da mais importante cimeira climática global, a COP24 que irá decorrer em Katowice ainda este ano, onde se espera que os governos se comprometam a intensificar os seus objetivos climáticos. Todos os olhos estão agora sobre os Ministros do Ambiente da UE, dos quais os cidadãos esperam uma ação firme sobre os avisos do IPCC e o compromisso de aumentar significativamente o objetivo de redução das emissões de gases com efeito de estufa da UE em 2030 bem além dos 45%, em linha com as recomendações do IPCC sobre o caminho necessário para atingir o limiar de 1,5°C. Para manter o aquecimento global abaixo dos 1,5°C, significa que a Europa tem de reduzir drasticamente as suas emissões domésticas para atingir emissões líquidas zero até 2040, e isso precisa ser refletido na nova estratégia climática de longo prazo da UE“.

 

Síntese do sumário para decisores do relatório especial do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas(seleção da responsabilidade da ZERO)

Estima-se que as atividades humanas tenham causado, aproximadamente, 1,0°C de aquecimento global acima dos níveis pré-industriais. O aquecimento global deverá atingir 1,5°C entre 2030 e 2052, se continuar a aumentar à taxa atual.

O aquecimento associado às emissões antropogénicas, desde o período pré-industrial até ao presente, persistirá por séculos a milénios e continuará a causar mais mudanças de longo prazo no sistema climático, como o aumento do nível do mar com impactos associados, mas essas emissões só por si não deverão causar um aquecimento global de 1,5°C.

Os riscos relacionados com o clima para os sistemas naturais e humanos são maiores para o aquecimento global de 1,5°C do que no presente, mas menor do que a 2°C. Esses riscos dependem da magnitude e da taxa de aquecimento, localização geográfica, níveis de desenvolvimento e vulnerabilidade, e das escolhas e implementação de opções de adaptação e mitigação.

Os modelos mostram diferenças no clima regional entre o aquecimento atual e global de 1,5°C, e entre 1,5°C e 2°C em muitas componentes: temperatura média na maioria das regiões terrestres e oceânicas, extremos de calor na maioria das regiões habitadas, precipitação intensa em várias regiões e a probabilidade de deficits de seca e precipitação em algumas regiões. Um aquecimento global de 1,5°C em comparação com 2°C reduzirá o aumento do nível do mar em 0,1 metros até 2100, a perda e extinção de espécies será inferior, bem como os impactes nos ecossistemas terrestes, de água doce e costeiros. Também os aumentos da temperatura da água, bem como os aumentos associados na acidez e reduções nos níveis de oxigénio dos oceanos serão mais reduzidos. Limitar o aquecimento global a 1,5°C reduz os riscos para a biodiversidade, pesca e ecossistemas marinhos, e as suas funções e serviços para os seres humanos, como ilustrado pelas recentes mudanças no gelo do Ártico e nos ecossistemas de recife de coral.

Estima-se que os riscos relacionados com o clima para a saúde, meios de subsistência, segurança alimentar, abastecimento de água, segurança humana e crescimento económico aumentem com o aquecimento global de 1,5°C, e aumentem ainda mais com 2°C. 

Os caminhos que limitam o aquecimento global a 1,5°C exigirão transições rápidas e de longo alcance na produção de energia, uso de solo, infraestruturas urbanas (incluindo transportes e edifícios) e sistemas industriais. Essas transições de sistemas são sem precedentes em termos de escala, mas não necessariamente em termos de velocidade, e implicam reduções de emissões profundas em todos os setores, um amplo portfólio de opções de mitigação e um significativo aumento de investimentos nessas opções.

As estimativas do resultado das emissões globais das atuais ambições de mitigação declaradas nacionalmente, conforme apresentadas no Acordo de Paris, resultariam em emissões globais de gases do efeito estufa em 2030 de 52 a 58 GtCO2eqano-1. Os caminhos que refletem essas ambições não limitariam o aquecimento global a 1,5°C, mesmo se complementados por aumentos muito desafiadores na escala e na ambição de reduções de emissões após 2030. Evitar a ultrapassagem e a dependência da implantação futura em larga escala da remoção de dióxido de carbono, só se alcançará se as emissões globais de CO2começarem a diminuir bem antes de 2030.

O desenvolvimento sustentável apoia e, muitas vezes, possibilita as transições e transformações fundamentais da sociedade e dos sistemas que ajudam a limitar o aquecimento global a 1,5°C. Tais mudanças facilitam a busca de caminhos de desenvolvimento resilientes ao clima que alcancem a mitigação e adaptação climática ambiciosas, em conjunto com a erradicação da pobreza e os esforços para reduzir as desigualdades.