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Relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC)

O novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) hoje divulgado prova que a interrupção da crise climática não será possível sem uma mudança radical da nossa produção e consumo de alimentos e sem uma muito melhor proteção das florestas. Para estimular uma rápida transformação do uso sustentável do solo, a União Europeia precisa urgentemente de aumentar sua meta climática para 2030. Portugal tem de ser coerente e cumprir o sentido do Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 na área da agricultura, florestas e uso do solo, bem como na modificação dos hábitos alimentares dos portugueses.

O relatório, publicado pelo principal organismo do mundo composto por cientistas do clima, faz uma avaliação mais abrangente das estreitas ligações entre o desequilíbrio climático e a forma como usamos a terra, nomeadamente através da agricultura e silvicultura.

O relatório, endossado pelos governos de todo o mundo, fornece fortes evidências científicas dos impactes catastróficos no clima pela forma atual como usamos o solo e do enorme potencial que este setor apresenta para reduzir as emissões. Para enfrentarmos a emergência climática, precisamos de adotar práticas agrícolas que trabalhem com a natureza e se afastem da agricultura industrial de grande escala, temos de eliminar o desperdício de alimentos e reduzir o consumo de carne e ainda parar a desflorestação e restaurar os ecossistemas danificados.

Francisco Ferreira, Presidente da ZERO, comentando a relação dos temas do relatório com Portugal, disse: “Portugal é dos países onde o uso do solo é mais decisivo para atingirmos os objetivos do Acordo de Paris. Temos a grande missão de evitar a destruição sistemática das nossas florestas pelos incêndios, evitando as extensas monoculturas. A desertificação avançará cada vez mais se não soubermos cuidar adequadamente do solo. Precisamos de investimentos agrícolas que sejam apostas diferentes do passado, com menos necessidades de água e de fertilizantes e com maior resiliência à mudança climática. Quanto aos hábitos dos portugueses, precisamos mesmo de mudar a nossa dieta alimentar que inclui demasiada carne e peixe, a bem da saúde, dos ecossistemas e do clima.”

Comentando as implicações do relatório para os decisores da União Europeia, Wendel Trio, Diretor da Rede Europeia de Ação Climática (CAN-Europe) afirmou: “Para acabar com o desequilíbrio climático, precisamos de uma mudança rápida e de longo alcance no setor fundiário da União Europeia (UE), a par de todos os outros setores da economia. A UE precisa de aumentar rapidamente a taxa de redução de emissões na agricultura e investir na conservação da natureza. Para estimular a ação imediata neste setor, de acordo com a meta de 1,5 °C, a UE precisa também de aumentar sua meta climática para 2030 para pelo menos 65% de redução de emissões. A oportunidade perfeita para isso é a Cimeira de Ação Climática da ONU em setembro em Nova Iorque. ”

O novo relatório do IPCC mostra que uma maior ação climática alinhada com a meta de manter a elevação da temperatura de 1,5 °C é crucial para evitar a enorme quebra das nossas cadeias alimentares. Ultrapassar este limiar, muito provavelmente pioraria os riscos existentes e aumentaria a desertificação, diminuiria a produtividade das culturas e da pecuária, reduziria o teor de nutrientes das culturas e contribuiria para a insegurança alimentar, pobreza, migrações e conflitos.

Hoje em dia, muitos agricultores na Europa perdem a produção e a receita devido a frequentes secas, inundações, ondas de calor e incêndios florestais. Alguns deles não se podem adaptar mais e deram início à ação judicial “Pessoas pelo Clima” para instar os decisores da UE a aumentar a ambição da sua resposta à crise climática.

Alfredo Sendim, agricultor português e um dos participantes na referida ação judicial disse: “É cada vez mais difícil adaptarmo-nos às consequências nefastas das alterações climáticas. Em breve seremos forçados a abandonar a nossa terra e a nossa ocupação tradicional. Juntamente com outras nove famílias e a juventude Sami finlandesa, levo a UE a Tribunal para exigir mais ação climática. A UE deve aumentar urgentemente a ambição da sua meta climática para 2030 para nos proteger a nós e a milhões de outros pequenos agricultores europeus ”.