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ZERO efetuou a análise de dados oficiais da qualidade do ar e apela à implementação urgente de medidas.

A ZERO tem vindo a acompanhar em detalhe a evolução da qualidade do ar nas cidades de Lisboa e Porto, recorrendo às concentrações de dióxido de azoto (NO2) medidas nas estações de monitorização da qualidade do ar geridas pelas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional e cujos dados provisórios são disponibilizados pela Agência Portuguesa do Ambiente.

O dióxido de azoto é um excelente indicador da poluição associada à atividade humana e tem sido usado por diversas entidades e universidades à escala mundial para avaliar o impacte da quebra da atividade económica e da mobilidade na qualidade do ar associadas às medidas restritivas impostas pelo controlo da pandemia de covid-19.

Nas cidades, o dióxido de azoto medido é principalmente consequência direta dos processos de combustão que têm lugar nos veículos, com maior responsabilidade dos que utilizam o gasóleo como combustível que apresentam maiores emissões comparativamente com os veículos a gasolina.

O dióxido de azoto em concentrações elevadas causa efeitos que vão desde a irritação dos olhos e garganta, até à afetação das vias respiratórias, provocando diminuição da capacidade respiratória, dores no peito, edema pulmonar e danos no sistema nervoso central e nos tecidos. Os grupos mais sensíveis como as crianças, os asmáticos e os indivíduos com bronquites crónicas são os mais afetados. Este poluente pode ainda aumentar a reatividade a alergénios de origem natural.

Um bom começo, uma má evolução

Em Lisboa, a primeira fase de desconfinamento começou com concentrações de dióxido de azoto até ligeiramente mais reduzidas que durante os estados de alerta e emergência. Apesar das condições meteorológicas interferirem sempre na qualidade do ar, não há dúvidas que a segunda fase de desconfinamento se traduziu num aumento muito significativo. Na Avenida da Liberdade verificou-se um aumento da concentração média entre a 1ª e a 2ª fase de desconfinamento  de 86% (de 20 para 38 ug/m3), tendo as outras estações de monitorização em Lisboa registado aumentos entre 6% (Olivais) e 48% (Entrecampos). O uso do automóvel é a principal causa deste aumento, já que é nas estações de tráfego que se verificam os maiores aumentos. Como indicador, na Avenida da Liberdade estamos a atingir níveis muito próximos com o valor-limite anual de dióxido de azoto (40 ug/m3).

Média NO2 (ug/m3) estado de alerta + emergência (13 de março a 3 de maio)
Av. Lib. Entrecampos Sta. Cruz Benfica Restelo Olivais Praça FSC Porto
22 17 20 16 14 45
           
Média NO2 (ug/m3) 1ª fase desconfinamento (4 a 17 de maio)  
Av. Lib. Entrecampos Sta. Cruz Benfica Restelo Olivais Praça FSC Porto
20 17 19 16 12 49
           
Média NO2 (ug/m3) 2ª fase desconfinamento (18 a 29 de maio)  
Av. Lib. Entrecampos Sta. Cruz Benfica Restelo Olivais Praça FSC Porto
38 25 24 20 15 55

 

“O gráfico do nosso descontentamento”

Para a Avenida da Liberdade em Lisboa, a ZERO apresenta um gráfico das concentrações médias ao longo das 24 horas para quatro períodos: o total do ano de 2019, o período do estado de alerta e emergência, o período da 1ª fase de desconfinamento e o período da 2ª fase de desconfinamento.

No Porto, a ZERO avaliou a única das duas estações de monitorização de qualidade do ar que apenas tem dados disponíveis desde o início de abril – a estação localizada na Praça Francisco Sá Carneiro, próximo de Campanhã. É uma estação de tráfego que reflete a proximidade de semáforo, o que pode interferir nos dados. Neste caso, quer mesmo durante o estado de alerta e emergência, as concentrações foram superiores ao valor-limite anual de dióxido de azoto. Talvez pelo ponto de partida já ser muto elevado, as concentrações registaram apenas uma aumento da ordem dos 13% entre a 1ª e a 2ª fase de confinamento, mas estão já muito acima quando comparando com o valor-limite anual do poluente (quase 40% acima).

 

Adeus recordes de excelente qualidade do ar

As concentrações de dióxido de azoto na estação de monitorização da Avenida da Liberdade apresentaram sucessivos recordes nos últimos meses. Considerando o longo período iniciado a 13 de março de 2020 com o estado de alerta e até ao final do estado de emergência (3 de maio), foi possível identificar que a média da concentração deste poluente nunca havia sido tão baixa desde 1994 durante tanto tempo (quase dois meses): 20,5 mg/m3;

Em Lisboa, as concentrações de dióxido de azoto verificadas nos dois períodos de maior restrição (9 a 13 de abril – fim-de-semana da Páscoa e 1 a 3 de maio – fim-de-semana prolongado) tinham sido particularmente baixas e sem grandes diferenças entre eles, quer nas estações junto a tráfego da Avenida da Liberdade e Entrecampos, quer nas zonas do Restelo e Olivais) (concentrações em microgramas por metro cúbico).

 

Não podemos pôr a saúde em causa – ZERO quer que autarquias tomem medidas imediatas para impedir aumento da poluição

Sendo desejável a retoma do funcionamento da cidade de Lisboa, a ZERO apela para a capacidade de implementarmos desde já, de forma justa e progressiva, um conjunto de medidas que consigam desde já garantir o cumprimento da legislação e melhorem a qualidade de vida numa das áreas mais nobres da cidade. A nova Zona de Emissões Reduzidas prevista pela Câmara Municipal de Lisboa é um elemento essencial num futuro próximo e logo que possível, a par de outras medidas que permitam assegurar uma boa qualidade do ar. No Porto é necessário resolver também estruturalmente os problemas de monitorização e qualidade do ar existentes. Estando agora mais conscientes da necessidade de salvaguardarmos a saúde pública, será uma enorme desilusão e uma mostra de incapacidade de gestão dos municípios e do governo se não o conseguirmos fazer.