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Comemora-se hoje o dia da floresta autóctone, data criada para assinalar a época mais adequada para a plantação de árvores e arbustos na Península Ibérica, e a ZERO aproveita a ocasião para reclamar mais investimentos públicos orientados para tornar a nossa área florestal mais diversificada em espécies, mais resistente aos fogos, mais sequestradora de carbono e mais reguladora do ciclo da água.

Num momento em que se inicia mais uma legislatura, em que está em curso a preparação da programação da utilização de fundos comunitários para o período 2021-2027, oriundos da Política Agrícola Comum, e em que é necessário definir uma estratégia de aplicação coerente das verbas do Fundo Florestal Permanente e do Fundo Ambiental, é fundamental que sejam definidas orientações políticas com o intuito de se promover uma gestão florestal colaborativa que seja remunerada em função dos serviços de ecossistema que disponibiliza ao conjunto da sociedade.

Neste contexto, o financiamento da plantação de espécies autóctones, por exemplo as diversas espécies de carvalhos (espécies do género Quercus), incluindo o criticamente em perigo de extinção carvalho-de-Monchique (Q. canariensis), a cerejeira-brava (Prunus avium), o azereiro (Prunus lusitanica), o plátano-bastardo (Acer pseudoplatanus), o azevinho (Ilex aquifolium) ou o teixo (Taxus baccata), também em perigo de extinção, surge como decisivo para romper com um quadro de excessiva aposta num pequeno número de espécies economicamente mais rentáveis e de um fraco papel do Estado na promoção de uma floresta onde mais espécies nativas possam ser favorecidas.

Investimento no minifúndio deve ser prioritário

Ainda que exista um problema de recorrência dos fogos rurais em ciclos cada vez mais curtos, em resultado de um número de ignições que continua muito elevado (10.960 desde o início do ano, ou seja, em média cada ignição resultou em 4 hectares de área ardida), é necessário não esquecer que a floresta portuguesa – principalmente a norte do rio Tejo, onde o minifúndio predomina – tem um histórico de incipiente (ou mesmo ausência de) gestão que necessita de ser resolvido com urgência.

É por esta razão que a ZERO considera incompreensível o fraco empenho e insensibilidade do Governo na promoção de dois instrumentos fundamentais para facilitar a gestão do minifúndio e criar valor para os proprietários – as Sociedades de Gestão Florestal (SGF), com lógica mais empresarial, e as Unidades de Gestão Florestal (UGF), com uma lógica mais cooperativa e condominial.

De facto, num momento em que as alterações climáticas nos obrigam a repensar a forma como gerimos o território, em particular aquele que tem aptidão florestal, a adaptação passará necessariamente pela aposta numa floresta que potencie um mosaico diversificado que em simultâneo preste serviços ambientais ao conjunto da sociedade e que crie valor para os proprietários, única forma de combater o abandono que se regista na atualidade.

Para tal, torna-se decisivo as políticas públicas remunerem adequadamente os proprietários que participem em SGF e UGF por perdas de rendimentos resultantes da aposta em espécies autóctones, como os carvalhos, ou da simples afetação dos terrenos à criação de áreas com descontinuidade de combustível que previnam a propagação dos fogos.

Carvalhais e pinhais de pinhal-bravo “campeões” do armazenamento do carbono

Por último, gostaríamos de dar nota que de acordo com os dados já publicados do 6.º Inventário Florestal Nacional, ressaltam à vista os elementos relativos às estimativas de carbono armazenado na biomassa viva das árvores em povoamentos puros, em particular a importância dos carvalhais (diversas espécies do género Quercus, em particular carvalho-alvarinho ou roble, o carvalho-negral ou pardo-das-beiras e o carvalho-português ou cerquinho) e dos pinhais de pinheiro-bravo. Assim, o pinheiro-bravo com valores de 119 toneladas de CO2eq por hectare (ha) e os carvalhos das espécies mencionadas anteriormente com 112 toneladas de CO2eq por hectare – muito longe dos sobreiros, pinheiros-mansos, eucaliptos, azinheiras (78 t CO2eq/ha, 73 t CO2eq/ha, 72 t CO2eq/ha e 47 t CO2eq/ha, respetivamente) – parecem ser uma aposta segura no que respeita ao sequestro de carbono, ainda mais quando Portugal se comprometeu a atingir a neutralidade carbónica em 2050.