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ZERO propõe medidas para reduzir a dependência externa, apoiar a agricultura biológica e melhorar a saúde dos portugueses

Quando está prestes a terminar o Ano Internacional das Leguminosas, a ZERO aproveita esta época festiva, que tende a propiciar exageros de alimentação, para alertar para a existência de um excesso de consumo de proteína animal – carne, ovos e peixe – em Portugal. Associados a este consumo exagerado estão problemas de saúde e impactes ambientais muito significativos. É urgente implementar soluções para que a nossa alimentação seja mais saudável e sustentável.

Roda dos alimentos não é cumprida

A ZERO analisou os dados estatísticos para o ano de 20151 e verificou que, face ao que preconiza a Direcção Geral de Saúde2, que recomenda , em média, um consumo de 90 gramas por dia por pessoa de carne, ovos e pescado, cada português consome 4,4 vezes mais do que seria necessário deste grupo de alimentos1. Ou seja, cada português consome num ano cerca de 178 kg de carne, pescado e ovos quando deveria consumir apenas 33 Kg.

Os casos onde se verifica um desvio mais significativo são os da carne de porco, com um consumo de 1,4 vezes superior ao recomendado, o consumo de animais de capoeira, em particular de aves, com 1,2 vezes superior, e do pescado, onde se regista um valor 1,7 vezes superior.

Ao invés, o consumo de leguminosas proteaginosas (feijão, grão, lentilhas, favas, ervilhas, etc.), que devido ao seu elevado teor de proteína (entre 18 e 36%) são um óptimo complemento e/ou substituto da carne e do peixe, é de apenas 14% em relação ao que seria necessário para satisfazer as exigências diárias de proteínas, segundo a Roda dos Alimentos3.

Esta situação é não só reveladora de hábitos alimentares desadequados e pouco saudáveis, mas também indutora de impactes económicos e ambientais significativos que devem merecer uma reflexão por parte dos poderes públicos, particularmente os ligados aos Ministérios do Ambiente, da Saúde, do Mar, e da Agricultura, das Florestas e do Desenvolvimento Rural.

Ao nível dos impactes económicos importa referir que Portugal continua a ser muito deficitário na produção de carne de vaca e de porco, importando, respectivamente, cerca de 53% e 69% do consumo anual4. Ao nível do pescado, o país ainda se encontra pior, garantido apenas 37% do necessário.

Do ponto de vista energético e ambiental, os dados mostram-nos uma grande ineficiência, já que para que se possa produzir uma quilocaloria (Kcal) de carne de vaca estabulada é necessário utilizar 74 kcal de energia obtida com recurso a combustíveis fósseis, no caso da carne de porco necessitamos de 60 Kcal, para os ovos 39 Kcal e para o frango 4 Kcal.

A produção animal intensiva tem ainda impactes muito significativos através das emissões de metano – um gás com efeito de estufa 25 vezes superior ao dióxido de carbono –da degradação dos rios e ribeiras e da contaminação dos aquíferos. Ao nível do consumo de água, este é 100 vezes maior para produzir 1 Kg de carne do que para produzir 1 Kg de leguminosas5.

No caso do peixe, a ZERO defende a conciliação do consumo da população portuguesa com as respostas dos recursos biológicos, dado que os stocks das principais espécies consumidas estão sob enorme pressão.

ZERO sugere alteração de políticas públicas

Apesar da existência de um Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, o que é já um bom ponto de partida, este Programa carece ainda de uma verdadeira interligação com outras áreas de gestão pública, designadamente ao nível do ambiente, agricultura, alimentação e pescas, sob pena da sua intervenção ser centrada apenas no Ministério da Saúde e ficar destinada a ter um alcance limitado e resultados muito circunscritos.

Neste contexto, a ZERO sugere um conjunto de medidas concretas para promover uma alimentação sustentável, que tenha por objetivo reduzir o consumo excessivo de proteína animal até 2020, reduzir igualmente os graves impactes associados à produção animal intensiva e contribuir para que o país seja mais eficiente e menos dependente de importações do exterior:

  • consciencializar os consumidores para o problema, através da promoção de acções de informação junto dos alunos das escolas do ensino básico e das suas famílias, sobre a existência da roda dos alimentos e sobre a necessidade de reduzir o consumo de proteína animal, substituindo-o por hábitos alimentares inspirados na dieta mediterrânica, assente em leguminosas, nos cereais, nos vegetais, nos frutos frescos e secos e com o azeite como gordura principal;
  • criar a opção de prato vegetariano, com carácter obrigatório, nas cantinas escolares e nos refeitórios dos serviços públicos e do sector empresarial do Estado, bem como a definição de dias sem consumo de proteína animal;
  • voltar a criar incentivos públicos à produção de leguminosas proteaginosas, atendendo ao fraco grau de aprovisionamento que o país possui, apesar de possuir solos aptos para o efeito; estas culturas podem ainda contribuir para melhorar a fertilidade dos solos e, se utilizadas técnicas de mobilização mínima, contribuir para incrementar os teores de matéria orgânica e auxiliar no sequestro do carbono;
  • criar incentivos públicos à produção nacional de raízes e tubérculos (cerca de 50% do consumo resulta de importação), bem como de frutos (20% do consumo destes, excluindo citrinos, resulta de importação);
  • eliminar, de forma progressiva, todos os apoios públicos à produção animal intensiva, canalizando-os para modos de produção biológicos, incluindo a produção de leite e dos seus derivados;
  • promover a criação de circuitos curtos agro-alimentares e bolsas de terrenos municipais para dinamizar a produção local de hortícolas e de leguminosas e criar uma interacção directa entre produtores e consumidores, estabelecendo uma responsabilização mútua na produção segura de alimentos;
  • criar uma rotulagem obrigatória – e não facultativa como hoje acontece – para a carne e para os ovos, com indicação do local de produção, sobre o carácter extensivo ou intensivo e sobre o conteúdo e origem da alimentação dos animais, tendo por objectivo proporcionar uma escolha consciente e informada aos consumidores.

1 INE, I.P, Balança Alimentar Portuguesa (consulta a www.ine.pt em 25 de Outubro de 2016)

2 Fonte DGS – http://www.alimentacaointeligente.dgs.pt/comprar_carne.html

3 Fonte: http://www.fao.org/3/a-ax433o.pdf

4 INE, I.P., Estatísticas Agrícolas 2015, Edição 2016, Lisboa-Portugal

5 Pimentel D, Pimentel M. Sustainability of meat-based and plant-based diets and the environment. Am J Clin Nutr. 2003;78 Suppl:660S–3S.

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