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Três dias depois do aniversário do escândalo de emissões com os veículos a gasóleo do grupo Volkswagen, a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, com base num estudo hoje divulgado pelas organizações não- governamentais de energia dos Estados Unidos da América (EUA), alerta para o facto de os televisores poderem estar a detetar testes oficiais e a reduzir o consumo de energia de modo a obter um maior nível de eficiência energética e aumentar as vendas. Quando expostos a conteúdos reais, os mesmos televisores podem duplicar o consumo de energia publicitado. Os televisores são igualmente capazes de desligar os mecanismos de poupança de energia sem aviso e não permitem que os utilizadores voltem a ligá-los. Nos EUA, estima-se que tal possa estar a adicionar 1,2 mil milhões de dólares às faturas de energia dos consumidores americanos ao longo do tempo de vida dos produtos.

O Conselho para a Defesa dos Recursos Naturais (Natural Resources Defense Council – NRDC), uma organização sem fins lucrativos Norte Americana, adjudicou a realização de testes laboratoriais independentes a televisores feitos pela Samsung, LG e da marca americana Vizio. Concluiu-se que as empresas não quebraram as leis dos EUA durante os testes obrigatórios do Departamento de Energia, mas “tomaram medidas questionáveis que vão em sentido contrário ao espírito da lei”.

O estudo do NRDC afirma: “Observámos quedas dramáticas e sustentadas no uso de energia nos televisores de alguns fabricantes, começando no primeiro minuto do circuito do vídeo de teste utilizado no método de teste do Departamento de Energia americano, em novos modelos de televisores.” Mais ainda, afirma-se que “é possível que alguns fabricantes tenham desenhado os seus televisores para detetarem a ocorrência contínua de cenas curtas e cortes frequentes nas cenas e para “otimizar” o seu desempenho para reduzir a potência quando é apresentado conteúdo com estas características. Isto permitiria a um fabricante publicar um consumo médio de energia muito baixo (e ganhar vantagem competitiva), apesar do televisor utilizar muito mais energia quando os consumidores a levarem para casa e virem os seus programas e conteúdos preferidos.”

“Tal deve-se principalmente ao facto de alguns dos principais fabricantes – incluindo Samsung, LG e Vizio, que em conjunto representam metade dos novos televisores vendidos nos EUA – terem desenhado os seus televisores para desativar as opções de poupança de energia sempre que o utilizador altere a definição de imagem principal.”

“Estas alterações debaixo do pano aumentam drasticamente a utilização de energia de um televisor e os seus impactes ambientais, normalmente sem o conhecimento do consumidor. Embora este truque possa não ser considerado ilegal, aparenta uma conduta de má-fé que cai fora do objetivo do método de teste desenhado para medir de forma precisa o consumo de energia dos televisores.”

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O que há de novo?

O jornal “The Guardian” divulgou uma história semelhante em 2015. A Samsung negou qualquer infração. Este novo relatório revela mais grandes marcas, mais modelos e uma estimativa da escala das perdas pelos consumidores. Também revela pela primeira vez que as definições de eficiência estão a ser desligadas automaticamente, sem aviso e que não podem ser ligadas novamente.

Os mesmos televisores são vendidos na Europa?

O NRDC testou os modelos Samsung UN55JU7100, Samsung UN55JS9000, LG 58UF8300 e Vizio RS65B2. A Vizio é uma marca norte Americana que não é vendida na Europa. As linhas de modelos da Samsung 9000 e 7000 são vendidas na Europa, mas não está ainda confirmado se os modelos exatos que foram testados são vendidos na Europa.

As linhas de produto partilham o mesmo tamanho de ecrã e muitas das mesmas características ou semelhantes. O mesmo aplica-se à LG, que também faz componentes para outras marcas, incluindo a Philips.

Poderão estar a fazer a mesma coisa na Europa?

A Europa tem testes muito semelhantes aos EUA. Antes dos fabricantes poderem vender televisores na Europa, os mesmos têm que realizar um vídeo de teste normalizado de 10 minutos nos seus televisores e medir a energia consumida. Este método é utilizado para verificar o cumprimento com os standards mínimos de performance de energia (Diretiva Ecodesign) e para determinar o nível de eficiência energética dos televisores (Diretiva de Etiqueta Energética).

Quão bons são os testes europeus?

Os Estados-Membros da União Europeia e o governo dos EUA usam o mesmo video de teste para determinar o cumprimento com as suas leis, que variam entre a UE e os EUA. O vídeo de teste faz parte da IEC 62087, que foi criada por um comité técnico da Comissão Eletrotécnica Internacional (IEC em inglês), comités que são maioritariamente constituídos por representantes da indústria. O vídeo de teste reflete os níveis globais médios de conteúdo de imagem (34% brilho), mas está estruturado de uma forma altamente artificial, consistindo na mudança rápida de cenas que tornam muito evidente que se trata de um teste oficial e muito improvável um conteúdo de uma emissão normal de televisão. Filmado em alta definição, e com a última atualização em 2015, o vídeo de teste está também fora de prazo. Muitos televisores vendidos hoje em dia têm modelos com resolução 4K e/ou incluem características de dinâmica de elevado alcance, em que ambos consomem mais energia do que os de alta definição, mas não são parte do vídeo de teste. Estima-se que 40% dos modelos vendidos até 2019 sejam HDR.

As regras atuais para os televisores são de 2009 e não têm a capacidade de acompanhar as rápidas mudanças na tecnologia dos televisores. Como resultado, as regras atuais são mais permissivas do que o que deveriam para a tecnologia atualmente existente, de acordo com um relatório da Comissão Europeia em 2012. Contudo, a Comissão Europeia está atenta a esta situação e encontra-se a preparar novas regras que deverão abordar muitas das questões levantadas pelo relatório do NRDC. As novas regras poderiam incluir referência para um novo vídeo de teste muito mais reflexivo da visualização real de televisão. Foi este novo vídeo de teste europeu que o NRDC utilizou no seu relatório.

As exigências políticas da ZERO

A Comissão Europeia deve rapidamente adotar regras mais fortes, abordando as questões levantadas pela investigação da NRDC. Os métodos de ensaio e o vídeo de teste que os sustentam devem refletir a tecnologia dos televisores mais modernos.

A Diretiva sobre a rotulagem energética está a ser revista em Bruxelas. As novas regras devem deixar claro que qualquer utilização de dispositivos manipuladores, que não foi provado no caso dos televisores, deveria ser ilegal. Os fabricantes devem ser obrigados a informar os consumidores sobre alterações nas configurações ou atualizações de software que possam afetar negativamente o consumo de energia dos seus aparelhos depois de adquiridos. Os consumidores devem ser capazes de retornar às configurações originais facilmente. Em última análise, as autoridades de fiscalização do mercado nacional devem ter as ferramentas, recursos e apoio político para verificar o cumprimento das regras.

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