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A 8 de Agosto esgotaremos os recursos naturais do Planeta disponíveis para este ano. ZERO alerta que o “cartão de crédito” ambiental é usado cada vez mais cedo!

 

Todos os anos é apresentada uma estimativa sobre o dia em que a Humanidade atinge o limite do uso sustentável de recursos naturais disponíveis para esse ano, ou seja, o orçamento natural, habitualmente designado como Overshoot Day. Este ano o limite foi atingido a 8 de agosto, quando o ano passado foi a 13 do mesmo mês. O último ano em que conseguimos todos viver com o nosso orçamento natural anual foi em 1970.

Portugal é, há já muitos anos, deficitário na sua capacidade para fornecer os recursos naturais necessários às atividades desenvolvidas (produção e consumo). A nossa pegada per capita é de 3,9 hectares globais, mas a nossa biocapacidade é de 1,5 hectares globais. Ficam a faltar 2,4 hectares globais per capita, o que significa que a nossa pegada ecológica excede em 160% a nossa biocapacidade, colocando-nos no grupo dos 35 países com maior défice ambiental em todo o mundo[1].

Ainda assim, estamos melhor do que a Espanha (190%), a Itália (330%) a Holanda (350%) ou a Bélgica (530%), mas bem pior do que a Alemanha (130%), a Áustria (98%) ou países como a Suécia ou a Finlândia, que são contribuintes ativos em termos de biocapacidade (+ 4% e +10% respetivamente).

É urgente alterar esta tendência insustentável

Num mundo onde persiste uma enorme desigualdade em termos de distribuição de rendimentos e acesso a recursos naturais, estes dados devem-nos fazer refletir a absoluta necessidade de se produzir e consumir de forma muito diferente.

O Planeta é a fonte de tudo o que necessitamos para viver enquanto espécie. O Overshoot Day indica-nos como estamos e, tal como os dados demonstram, a urgência em mudarmos o rumo.

É muito comum falar-se da importância de mudar os estilos de vida como um elemento chave para a construção de uma sociedade sustentável. Contudo, a mudança necessária rumo à sustentabilidade não será atingida apenas pela ação individual dos cidadãos. A ação política e das empresas em diferentes sectores é crucial.

Propostas ZERO para reduzir o défice ambiental

A ZERO considera que a aposta numa Economia Circular, onde efetivamente a utilização e reutilização de recursos é maximizada, deverá ser uma prioridade transversal a todas as políticas públicas. O ponto fulcral deverá ser a redução no uso de materiais, a promoção da reutilização e a extensão dos tempos de vida dos bens e equipamentos. Para ser eficaz, teremos que mudar o paradigma de “usar e deitar fora”, muito assente na reciclagem, incineração e deposição em aterro, para um paradigma de “ter menos, mas de melhor qualidade”, com um forte enfoque na redução, reutilização e reparação. Em Portugal, o consumo de materiais situa-se acima da média europeia, com a produtividade dos recursos a ser muito menor no nosso país em comparação com a média da UE: 1,14€/kg vs 1,98€/kg. Há por isso um intenso trabalho a fazer em prol da economia, da sociedade e do ambiente no que diz respeito à utilização de recursos no nosso país.

A promoção de uma dieta alimentar saudável e sustentável (a começar nas escolas, mas a integrar de forma abrangente em toda a sociedade), com a redução do consumo de proteína de origem animal e um aumento significativo do consumo de hortícolas, frutas e leguminosas secas, trará enormes benefícios à saúde de todos e uma redução significativa do impacto ambiental associado à alimentação. Em Portugal, tal significará uma aproximação da balança alimentar portuguesa com o preconizado no padrão alimentar da roda dos alimentos[2], um objetivo, sobre todos os pontos de vista, desejável.

A promoção da mobilidade sustentável assente em diferentes estratégias como sejam: a melhoria do acesso e das condições de operação dos transportes públicos (por exemplo, privilegiando os corredores específicos e melhorando a articulação entre diferentes meios de transporte, ao nível dos interfaces, horários e bilhética), a disponibilização de infraestruturas e condições que estimulem a mobilidade suave (andar a pé, utilização da bicicleta), a partilha do transporte (car-sharing) ou mesmo a transição para a mobilidade elétrica.

O papel do cidadão

Cada um de nós pode ter também um papel muito importante, desde logo através da pressão que podemos colocar em todo o sistema de produção.

Exigir a nível político e empresarial a democratização da sustentabilidade. Não faz sentido que quem quer ser sustentável deva ser penalizado em termos de preço ou de dificuldade no acesso aos bens necessários. É importante que o preço a pagar seja justo, mas é muito importante que as soluções menos sustentáveis sejam penalizadas ao mesmo tempo que as opções sustentáveis são incentivadas. A pressão de todos nós pode fazer a diferença.

Alterar a dieta alimentar, respeitando a Roda dos Alimentos é um dos maiores contributos que cada um de nós pode dar em termos de sustentabilidade. Reduzir o consumo de proteína animal, de gorduras e de comidas processadas terá benefícios em termos de saúde, mas também em termos ambientais e sociais, em particular se se optar por comprar produtos locais ou, pelo menos, nacionais.

Evitar usar o carro individual, assumindo o desafio de conhecer melhor o sistema de transportes públicos (muitas opiniões baseiam-se em experiências com décadas e não refletem as melhorias que foram sendo implementadas). Partilhar boleias com colegas e incentivar as crianças e jovens a deslocarem-se mais a pé ou em modos suaves (bicicleta, trotineta, patins, etc.) é outra das medidas que podemos procurar integrar nas nossas vidas.

Dar um passo de cada vez. Propôr-se, por exemplo, o objetivo de fazer uma mudança por mês para tornar o seu quotidiano mais sustentável, e partilhá-lo com os seus amigos e colegas (não só poderá sensibilizá-los, como poderá aumentar o seu “incentivo” para manter o seu interesse).

Evitar usar o cartão de crédito ambiental é um investimento no nosso bem-estar e qualidade de vida. Viver com pleno respeito pelos generosos limites do Planeta Terra é a única forma de garantirmos um melhor futuro para todos.

[1] http://www.footprintnetwork.org/ecological_footprint_nations/

[2] https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=209480091&DESTAQUESmodo=2&xlang=pt

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