Início » ZERO alerta: crianças expostas a níveis preocupantes de poluição junto às escolas em Lisboa
A ZERO realizou, pela primeira vez, uma campanha de avaliação da qualidade do ar na envolvente de 15 escolas em Lisboa (lista abaixo), através da medição de dióxido de azoto (NO₂). Para esta campanha foram utilizados tubos de difusão, da Gradko Internacional, instalados durante cerca de 3 semanas nos locais referidos, e posteriormente enviados para análise. Embora os valores-limite fixados na legislação se refiram a médias anuais, os resultados apresentados na tabela abaixo e no mapa interativo disponível no site da ZERO constituem, ainda assim, indicadores extremamente preocupantes.
A ZERO alerta que, de acordo com os resultados obtidos, nenhuma área envolvente das escolas cumpre o valor máximo recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Ou seja, todos os ambientes escolares analisados apresentam concentrações de NO₂ acima da concentração média anual considerada saudável para exposição prolongada, 10 µg/m³.
Com exceção da Escola Dona Filipa de Lencastre, que está no limite da nova legislação europeia, todas as escolas ultrapassam também o valor limite de 20 µg/m³, definido na Diretiva da Qualidade do Ar – que entrará em vigor em 2030. A ZERO sublinha que três das 15 escolas registam valores superiores a 40 µg/m³, o atual limite legal em vigor, que nos últimos anos tem sido recorrentemente ultrapassado na Avenida da Liberdade1.
Os valores obtidos nesta campanha foram comparados com os valores registados pelas estações de monitorização de qualidade do ar geridas pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT), disponibilizados no site oficial da Qualar, no mesmo período. Quatro escolas apresentam níveis que se situam entre estações de tráfego e de fundo e as restantes escolas valores superiores à média das estações de tráfego. É de notar que nenhuma das estações oficiais de monitorização em Lisboa — nem de tráfego nem de fundo — regista concentrações compatíveis com os valores recomendados pela OMS. Em conjunto, estes resultados que devem ser vistos com precaução dado que o método de amostragem pode sobrestimar as concentrações avaliadas, mostram que a poluição do ar está presente de forma generalizada nos locais analisados, sugerindo que este é um problema estrutural em grande parte da cidade de Lisboa.
Uma das principais conclusões da campanha é a relação direta entre o tráfego rodoviário à entrada das escolas e as concentrações de NO₂. Observam-se valores entre 37–58 µg/m³ em escolas com 5 a 6 vias de circulação na faixa de rodagem de entrada, 21–41 µg/m³ em escolas com 2 a 4 vias, e 20–30 µg/m³ em escolas com 1 via. Estes resultados sugerem que quanto maior o tráfego automóvel, maiores as concentrações de NO₂, e contribuem para explicar como a Escola Dona Filipa de Lencastre, que tem apenas uma via na faixa de rodagem e uma zona ampla à entrada da escola, apresenta os resultados mais baixos de 20,2 µg/m³. Por oposição, o Colégio Cesário Verde, localizado na Av. Infante Dom Henrique com 6 vias de trânsito, foi a escola com maior concentração de NO₂ captada, de 57,8 µg/m³. Por fim, a ZERO lembra que, para além do NO₂, os veículos a combustão emitem partículas inaláveis e finas (PM10 e PM2,5, respetivamente), monóxido de carbono, compostos orgânicos voláteis e outros poluentes, sendo alguns deles precursores da formação de ozono troposférico.
1 Comunicado de imprensa da ZERO, “Má qualidade do ar em Lisboa: violação de limites mantém-se na Avenida da Liberdade em 2024”, disponível aqui.
A evidência científica é clara quanto ao impacto da poluição do ar na saúde das crianças. De acordo com a Agência Europeia do Ambiente (EEA), as crianças são particularmente vulneráveis à poluição atmosférica desde a vida intrauterina até à adolescência, devido ao seu organismo em desenvolvimento, maior taxa de respiração e maior exposição ao ar junto ao solo, onde alguns poluentes são mais concentrados. A poluição do ar está associada a efeitos graves na saúde infantil, incluindo baixo peso à nascença, infeções respiratórias, agravamento da asma, redução da função pulmonar e impactos no desenvolvimento ao longo da vida. De acordo com a mesma Agência, estima-se que a poluição do ar seja responsável pela morte de 1200 crianças na Europa, todos os anos. A exposição ao tráfego automóvel, em particular, é uma das principais fontes destes riscos em ambientes urbanos, como os espaços envolventes às escolas, aos quais as crianças estão expostas todos os dias.
As autarquias devem agir com urgência: para cumprir os limites legais, a Câmara de Lisboa e todas as outras autarquias, têm menos de quatro anos para assegurar que as concentrações de dióxido de azoto e de outros poluentes não ultrapassam o valor limite definido para 2030, e que a qualidade do ar em Lisboa é no país se aproxima rapidamente dos valores recomendados pela OMS. A redução do tráfego motorizado é uma medida essencial para garantir ambientes educativos saudáveis e seguros, paralelamente que se fomente a mobilidade ativa e transporte público escolar para as crianças.
A ZERO apela à implementação sistemática de Ruas Escolares permanentes— ruas na envolvência de escolas com restrição total ou parcial ao tráfego motorizado, especialmente nos horários de entrada e saída das crianças. Em vários países europeus (Espanha, Itália, França, Reino Unido, Polónia, Áustria, Alemanha, Bélgica, Países Baixos, entre outros) já existem milhares de exemplos com benefícios comprovados para a comunidade escolar e para a vizinhança: redução do ruído associado ao tráfego, e nalguns casos, redução das concentrações de dióxido de azoto,, aumento da segurança nas deslocações a pé e de bicicleta, e reforço da mobilidade ativa e da autonomia das crianças. Estas intervenções contribuem ainda para a melhoria da vida do bairro, com a criação de espaços mais verdes e de convívio e, em alguns casos, para a mitigação do efeito de ilha de calor, com reduções de temperatura que podem atingir até 5 ºC face às ruas envolventes, como demonstrado por estudos recentes sobre ruas escolares em Paris.
No âmbito da divulgação da campanha de qualidade do ar e do apelo à implementação de Ruas Escolares, a ZERO, com o apoio da Bicicultura e da Câmara Municipal de Lisboa, cria hoje uma Rua Escolar temporária em frente ao Colégio Pestalozzi, onde estes resultados são apresentados e debatidos com entidades responsáveis e comunidade escolar. Durante este período, as crianças podem usufruir do espaço público em segurança e com menor exposição aos poluentes do tráfego automóvel.
Tabela 1 – Listagem de escolas e respetivas concentrações de NO2 detetadas durante o período de exposição.
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