Início » Emissões da aviação cresceram 19% desde 2019 e expansão aeroportuária ameaça roteiro de descarbonização da aviação
A ZERO revela que, entre 2019, último ano antes da pandemia, e 2025, o consumo de jet fuel em Portugal aumentou 18,9%, de 1,60 para 1,90 milhões de toneladas/ano, acrescentando cerca de 1 milhão de toneladas de CO₂/ano. Esta situação é particularmente preocupante quando se tem em conta que as emissões dos principais combustíveis rodoviários cresceram 3,6% e as da produção elétrica caíram cerca de 70%, e que, em 2026, Portugal continua sem um orçamento de carbono para a aviação e sem o Roteiro para a Descarbonização da Aviação (RONDA) concluído. Para a ZERO, novas expansões da capacidade aeroportuária em Lisboa e no Porto apresentam três riscos fundamentais: para a saúde, pelo ruído e poluição atmosférica, particularmente graves em Lisboa; sociais e territoriais, pela pressão do crescimento do turismo sobre habitação, infraestruturas, serviços e custo de vida; e climáticos, pois, enquanto os combustíveis sintéticos não estiverem disponíveis à escala necessária, o crescimento do tráfego pode comprometer um orçamento de carbono para a aviação que Portugal ainda não definiu e que deverá ser desenvolvido rapidamente estabelecendo rigorosamente quanto pode o setor emitir cumulativamente de forma compatível com os objetivos do Acordo de Paris.
Uma nova análise publicada hoje pela Federação Europeia de Transportes e Ambiente – Transport & Environment (T&E), organização europeia da qual a ZERO é membro, que compara as trajetórias de emissões e planos de expansão com orçamentos de carbono compatíveis com o Acordo de Paris de 20 grandes aeroportos de dez países europeus, mostra que esta não é uma questão exclusivamente portuguesa e constitui um primeiro exercício comparativo de aplicação de orçamentos de carbono a grandes aeroportos europeus. A metodologia deverá ser aprofundada e aperfeiçoada, nomeadamente quanto aos critérios de repartição dos orçamentos entre países e aeroportos, mas a conclusão fundamental é suficientemente clara: o crescimento do tráfego aéreo não pode continuar a ser tratado como independente dos limites climáticos, sobretudo numa altura em que os combustíveis sintéticos permanecem muito longe da escala necessária. Este primeiro exercício europeu reforça, por isso, a urgência de cada país definir, de forma transparente e cientificamente fundamentada, o orçamento de carbono disponível para a sua aviação.
Para a ZERO, o RONDA deve colmatar esta lacuna, começando por definir um orçamento de carbono para a aviação portuguesa, com trajetória e marcos para 2030, 2035 e 2040 e referenciais que permitam avaliar as emissões associadas aos diferentes aeroportos. Este exercício deve integrar o CO₂, os efeitos climáticos não-CO₂ e os voos internacionais com partida de Portugal.
Esta definição é particularmente urgente perante o maior investimento aeroportuário das últimas décadas. O novo aeroporto de Lisboa, destinado a substituir o Humberto Delgado, está projetado para 56 milhões de passageiros anuais na primeira fase, expansíveis até 85 milhões. A decisão deve, por isso, considerar o orçamento de carbono da aviação e uma trajetória credível de descarbonização. O procedimento de Avaliação de Impacte Ambiental constitui uma oportunidade para comparar alternativas e acessibilidades e avaliar a compatibilidade do projeto com os objetivos climáticos. O mesmo princípio deve aplicar-se ao Porto: a capacidade só deve crescer quando Portugal demonstre poder acomodá-la no orçamento de carbono disponível.
Os combustíveis sintéticos de aviação (e-SAF), produzidos com hidrogénio renovável e carbono sustentável, serão essenciais para descarbonizar os voos que não possam ser evitados, transferidos para modos mais eficientes ou descarbonizados por outras soluções. A sua disponibilidade está, porém, muito abaixo da necessária para sustentar o crescimento continuado da aviação. Neste sentido, Portugal deve transformar os projetos de hidrogénio renovável em capacidade industrial, assegurando adicionalidade renovável, sustentabilidade e prioridade aos setores difíceis de eletrificar. É também necessário desenvolver uma cadeia industrial de e-SAF, identificando fontes sustentáveis de CO₂ biogénico e planeando a sua captura e transporte até aos polos de produção de hidrogénio e combustíveis sintéticos.
Antes de justificar uma nova capacidade aeroportuária com a futura utilização de e-SAF, Portugal deve demonstrar capacidade física, energética, industrial e económica para assegurar sustentavelmente os volumes necessários aos cenários de crescimento.
A ZERO defende uma trajetória previsível de moderação do crescimento do tráfego aéreo, orientada pelo orçamento de carbono e concretizada através de instrumentos regulatórios, fiscais e económicos socialmente justos. Esta contenção deve reduzir emissões enquanto as alternativas tecnológicas ganham escala e dar tempo à economia e à sociedade para se adaptarem aos impactos do crescimento da aviação e do turismo, nomeadamente na habitação, transportes, emprego, serviços públicos e ordenamento urbano.
Uma trajetória antecipadamente conhecida permite uma adaptação progressiva de trabalhadores, empresas, municípios e famílias, evitando medidas abruptas quando o orçamento de carbono se aproximar do esgotamento. Os instrumentos de gestão da procura devem também gerar receitas para mitigar os impactos ambientais e sociais da aviação e do sobreturismo, financiar alternativas ferroviárias e de transporte coletivo e apoiar os territórios mais pressionados.
Sendo o orçamento nacional de carbono finito, uma maior utilização pela aviação significa menor margem para outros setores difíceis de descarbonizar, daí que definir um orçamento para a aviação é, portanto, decidir de forma transparente como repartir o esforço nacional de descarbonização. A capacidade aeroportuária deve evoluir apenas ao ritmo a que Portugal demonstre conseguir descarbonizar a atividade adicional, e não antecipar-se na expectativa de soluções tecnológicas futuras.
Notas:
Sobre o estudo. O estudo “Overshoot: How expansion plans break European airports’ carbon limits”, da T&E, analisa 20 grandes aeroportos de dez países europeus, comparando as suas trajetórias de emissões e planos de expansão com orçamentos de carbono compatíveis com o Acordo de Paris. Adota como referência uma trajetória de 1,7 °C, com 67% de probabilidade, baseada no Sexto Relatório de Avaliação do IPCC. O relatório completo está disponível no sítio da T&E.
Sobre a metodologia. A T&E distribui o orçamento de carbono entre países e aeroportos por grandfathering, com base nas emissões históricas, favorecendo relativamente mercados onde a aviação tinha já maior peso. Mantém ainda até 2050 uma repartição setorial baseada na situação de 2019. A ZERO considera que estes pressupostos devem ser aprofundados, quer por razões de equidade climática, quer porque os diferentes setores apresentam ritmos e dificuldades de descarbonização distintos, sendo a aviação particularmente difícil de eletrificar. O estudo constitui, assim, um primeiro exercício europeu que demonstra a necessidade de cada país definir, de forma transparente e cientificamente fundamentada, o orçamento de carbono da aviação e as medidas necessárias para o cumprir.
Sobre o RONDA. O Roteiro Nacional para a Descarbonização da Aviação está a ser preparado pelo Governo no âmbito da Aliança para a Sustentabilidade na Aviação. A ZERO defende que deve partir de um orçamento de carbono para a aviação portuguesa, com trajetórias de referência para os diferentes aeroportos, permitindo avaliar sob um limite climático comum a descarbonização, a gestão da procura, os combustíveis sustentáveis e as decisões sobre capacidade aeroportuária.
| Cookie | Duração | Descrição |
|---|---|---|
| cookielawinfo-checkbox-analytics | 11 months | This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Analytics". |
| cookielawinfo-checkbox-functional | 11 months | The cookie is set by GDPR cookie consent to record the user consent for the cookies in the category "Functional". |
| cookielawinfo-checkbox-necessary | 11 months | This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookies is used to store the user consent for the cookies in the category "Necessary". |
| cookielawinfo-checkbox-others | 11 months | This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Other. |
| cookielawinfo-checkbox-performance | 11 months | This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Performance". |
| viewed_cookie_policy | 11 months | The cookie is set by the GDPR Cookie Consent plugin and is used to store whether or not user has consented to the use of cookies. It does not store any personal data. |