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18 de setembro – 4º aniversário do escândalo Dieselgate sobre a manipulação das emissões poluentes pelos fabricantes.

Continuam a circular nas estradas europeias 51 milhões de veículos poluentes a gasóleo a circular nas estradas europeias, um número que continua a crescer, quatro anos após ter sido exposto o escândalo da manipulação das emissões dos veículos a gasóleo pela indústria automóvel (que ficou conhecido como “Dieselgate”). Esta é a principal conclusão de um novo estudo divulgado hoje pela Federação Europeia dos Transportes e Ambiente (T&E), da qual a ZERO é membro.

Entre 2018 e 2019, o número de veículos a diesel a circular nas estradas europeias aumentou de 43 milhões para 55 milhões. Mesmo que todos os veículos afetados pelo Dieselgate fossem chamados à oficina para correção do software, o número de veículos altamente poluentes desceria apenas 16% para um total de 42,5 milhões, e se estas correções cumprissem critérios de qualidade uniformizados em todos os Estados-Membros.

A análise da T&E sobre os novos dados de emissões em condições reais de condução e os dados das marcas sobre as correções efetuadas aos veículos mostram um aumento de 18% nos últimos 12 meses, e um aumento acentuado de 74% desde 2016. Este aumento deve-se, em parte, às novas vendas no ano passado e em parte, a novas evidências sobre as emissões reais dos novos modelos a gasóleo.

A análise mostra que o Grupo Volkswagen é responsável por mais de um quinto de todos os veículos mais poluentes na UE (11,6 milhões), seguida pela Renault-Nissan (8,1 milhões) e PSA Group (7,2 milhões, excluindo a Opel e a Vauxhall).

Os Estados-Membros onde circulam mais veículos mais poluentes são a Alemanha (9,9 milhões), seguida pela França (9,8 milhões) e o Reino Unido (8,5 milhões). Se forem incluídos Itália, Espanha e Bélgica, esses 6 países representam 81% de toda a frota de veículos a gasóleo mais poluentes da UE. Portugal subiu um lugar em relação a 2018 e ocupa agora a 10ª posição, com 846 mil veículos poluentes a gasóleo a circular nas estradas.

Segundo dados do Instituto de Mobilidade e de Transporte (IMT), a autoridade nacional competente na matéria, relativos ao último trimestre de 2018, em Portugal, foram chamados à oficina para correções de software cerca de 125 mil veículos (apenas do Grupo Volkswagen, não considerando outras marcas fraudulentas) desde fevereiro de 2016; no entanto restam ainda 17 mil veículos por corrigir. Sem esta correção obrigatória, os veículos correm o risco de serem chumbados na inspeção periódica.

O estudo da T&E mostra, uma vez mais, que o escândalo Dieselgate está longe de chegar a um fim, já que não apenas o legado permanece em grande parte por desvendar, mas também porque mais veículos poluentes continuam a ser vendidos pela indústria e homologados pelos reguladores nacionais. Para além das correções de software, a maioria dos fabricantes e dos reguladores nacionais recusa considerar alterações de hardware, por serem mais caras apesar de muito mais eficazes na redução de emissões.

Esta é uma situação inaceitável, pois as soluções estão disponíveis há anos e este caso poderia ter sido coordenado em toda a UE para exigir correções eficazes, como aconteceu nos EUA. Se por um lado, as autoridades nacionais de homologação de veículos podem impedir o registo de modelos mais poluentes; por outro lado, existem tecnologias que podem reduzir as emissões com grande eficácia, como por exemplo o catalisador SCR (redução catalítica seletiva) que reduz as emissões entre 60 a 95% nos veículos testados, e atualmente custa cerca de 3.000 euros.

Como muitos destes veículos altamente poluentes foram adquiridos recentemente e continuarão a circular nas estradas europeias por vários anos, os consumidores devem exigir aos fabricantes que realizem as correções necessárias aos seus veículos, quer de software quer de hardware, o que poderia trazer benefícios ambientais e económicos, comparativamente com o descarte do veículo antes do seu fim de vida.

Além disso, desenvolvimentos recentes nas revisões de hardware para 60 modelos a gasóleo foram aprovados nos últimos meses na Alemanha e demonstraram reduzir as emissões de óxidos de azoto (NOx) em 60-95%. Os novos modelos elétricos – que oferecem alternativas limpas e irão tornar-se mais acessíveis – devem triplicar nos próximos três anos (de 60 para 214 modelos), como recentemente foi demonstrado através de outro estudo da T&E divulgado pela ZERO. Finalmente, uma reforma mais ampla dos padrões de mobilidade está em andamento, combinando os modos suaves de mobilidade e transporte público, com integração de serviços partilhados, o que reduzirá a necessidade de possuir um carro no futuro.

Para a ZERO, é inadmissível que, quatro anos após o Dieselgate, a UE não tenha tomado e continue a adiar as medidas necessárias para tornar mais eficientes milhões de veículos poluentes que continuam a circular nas estradas europeias, com impactos sérios na saúde dos cidadãos nas próximas décadas. A indústria automóvel não pode continuar a encontrar novas formas de manipulação dos testes e deve acelerar a transição para veículos de emissões zero, nomeadamente elétricos. As soluções devem passar pela alteração de hardware, mais do que pela alteração de software que se tem revelado insuficiente para reduzir as emissões dos veículos abrangidos pelo Dieselgate.