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A ZERO voltou na passada semana ao Campo Grande onde tinha estado em julho do ano passado e constatou uma enorme redução de ruído, principalmente associada ao tráfego aéreo.

A ZERO conduziu na passada semana, entre os dias 22 e 24 de abril, uma campanha de medição em contínuo do ruído ambiente na zona do Campo Grande, em Lisboa. O principal objetivo foi averiguar os níveis de ruído numa situação de fortes restrições de mobilidade e com muito poucos voos a utilizarem o aeroporto Humberto Delgado.

Ao mesmo tempo pretendeu-se efetuar uma comparação com a campanha de monitorização que ocorreu no mesmo local também durante dois dias em julho do ano passado, mais precisamente entre 4 e 6 de julho, no âmbito da ação da ZERO dÉCIbEIS A MAIS, O INFERNO NOS CÉUS de alerta e sensibilização para o ruído dos aviões e o seu impacto na cidade de Lisboa. Esta campanha continua a ser pertinente dado que o Governo português mantém, mesmo no quadro do enorme impacte na aviação da crise associada à covid-19, a intenção de ampliar de forma muito significativa a capacidade do Aeroporto Humberto Delgado.

O equipamento de medição, operado pela empresa NoiseLab e devidamente homologado e certificado*, foi instalado na tarde de 22 de abril (4a feira), tendo iniciado as medições pelas 16 horas, terminando cerca das 15 horas de dia 24 de abril (6ª feira).

A tabela abaixo permite uma análise detalhada dos dois períodos de funcionamento da cidade e em particular do aeroporto da Portela (julho de 2019 e abril de 2020).

Em primeiro lugar é conveniente referir que o tráfego rodoviário que se fez sentir na passada semana revelava já alguma intensidade, sendo que o menor trânsito também se traduz em velocidades mais elevadas e consequente agravamento do ruído. A análise dos dados permitiu a individualização de motas responsáveis por alguns picos de ruído ainda significativos. A informação relativa às medições da passada semana respeitante aos períodos noturnos que decorrem entre as 23h e as 7h permite constatar que há um cumprimento do valor limite legal de Ln = 55 dBA, apesar dos valores estarem muito próximos do máximo possível. Note-se que em cada um dos períodos noturnos que tiveram início às 23h de dia 22 e de dia 23 se verificou a aterragem de dois aviões. Para se perceber o impacte dos mesmos no total do ruído do período, e em relação ao dia 22 para 23 de abril, o valor final do indicador de ruído noturno teria sido de 52,4 dBA e não de 54,1 dBA se as duas aterragens não tivessem ocorrido.

Constata-se igualmente que há um cumprimento do indicador correspondente a uma média ponderada de 24 horas, o denominado Lden (indicador que integra de forma ponderadas os três períodos diurno, entardecer e noturno).

  L diurno (dBA) L entardecer (dBA) L noturno (dBA)
04/07/19 71,4 70,0 66,5
05/07/19 70,8 70,4 65,9
06/07/19 70,0    
Lden medido (dBA) Lden legislado (dBA)
74 (65)
L noturno medido (dBA) L noturno legislado (dBA)
66 (55)
       
  L diurno (dBA) L entardecer (dBA) L noturno (dBA)
22/04/20 61,2 58,0 54,1
23/04/20 60,5 56,9 53,7
24/04/20 60,8    
Lden medido (dBA) Lden legislado (dBA)
62 (65)
L noturno medido (dBA) L noturno legislado (dBA)
54 (55)

 

Na comparação dos dois períodos de medição (julho de 2019 e abril de 2020) é importante constatar que a diferença de 12 dBA relativamente dos indicadores Lden (24h) e Ln (L noturno). Considerando que uma variação de 10 dB no nível sonoro corresponde tipicamente a uma sensação do dobro em termos de sensação auditiva, a diferença de 12 dBA verificada está claramente acima dessa diferença. Deve-se também ter em conta que a escala de decibel é logarítmica e a intensidade sonora duplica a cada 3 dBA. Em julho de 2019, o Lden, que não pode ultrapassar para a zona em causa (zona mista / zona próxima de infraestrutura aeroportuária) 65 dBA, assumiu um valor de 74 dBA, em clara ultrapassagem do valor limite legal (mais 9 dBA), o mesmo tendo acontecido relativamente ao Ln (correspondente ao período noturno) que na altura ultrapassou o valor legal em 11 dBA.

Duas imagens sonoras completamente diferentes

Diz-se que uma imagem vale por vezes mil palavras. Abaixo estão os registos dos níveis sonoros (em dBA) ao longo do mesmo intervalo de medição e com a mesma escala vertical nos dois períodos de medição em julho de 2019 e abril de 2020. Na primeira imagem, correspondente ao período de julho de 2019, a maioria dos picos, principalmente os mais elevados, que quase formam uma mancha são resultado da passagem de aviões, enquanto na segunda imagem apenas sobressaem alguns picos esporádicos, sendo também a banda correspondente ao ruído do tráfego rodoviário com níveis ligeiramente mais baixos devido ao menor trânsito atual. Como exemplo, no dia 23 de abril sobrevoaram o Campo Grande apenas 17 voos, dois ainda antes das 7h da manhã no período noturno, 14 entre as 7h e as 20h e apenas um entre as 20h e as 23h.

Gráfico dos níveis de ruído medidos entre 4 e 6 de julho de 2019

 

Gráfico dos níveis de ruído medidos entre 22 e 24 de abril de 2020

(escalas horizontal e vertical idênticas para melhor comparação) 

Resultados são claros – NÃO É POSSÍVEL CUMPRIR A LEGISLAÇÃO de ruído com o movimento normal no aeroporto Humberto Delgado

O ruído é uma forte fonte de perturbação da qualidade de vida das pessoas, nomeadamente o ruído noturno, e encontra-se ligado a doenças crónicas, incluindo stress e doenças relacionadas, mas também a perturbações na aprendizagem das crianças, e mesmo doenças cardiovasculares.

A inexistência praticamente total de voos associada também a alguma redução do tráfego rodoviário mostra que é possível cumprir os limites da legislação. Porém, uma maior intensidade de trânsito elevará em alguns decibel os valores dos indicadores Lden e Ln, não dando margem, mesmo que com medidas associadas ao pavimento ou outras, a ter folga para evitar que os aviões causem uma excedência muito significativa dos limites tal como foi demonstrado na campanha de monitorização que decorreu em 2019.

Devendo haver uma reflexão sobre a forma de reconstruirmos a economia de um modo mais sustentável em linha com a resolução de outras crises como a crise climática, tendo em conta o aumento de emissões enorme que a aviação tem tido nos últimos anos e que na sequência da atual paragem vai ter uma recuperação lenta e talvez apenas parcial, procurando diversificar as atividades no que ao turismo diz respeito, considerando também que o setor da aviação e talvez apenas parcial, a ZERO considera que não se pode perder a oportunidade de discutir a inevitável relocalização do aeroporto Humberto Delgado no médio prazo se se quiser respeitar a legislação e acima de tudo salvaguardar a saúde dos habitantes em redor.

A ZERO continua a reiterar que os próximos 40 anos não podem ser decididos de forma irresponsável e impune. O funcionamento de um aeroporto como o aeroporto Humberto Delgado que sirva a região de Lisboa e o País é demasiado fundamental para a economia, para o turismo e para o desenvolvimento do País, mas também para a saúde de quem vive próximo para ser decidido de forma tão opaca e tão pouco pensada e discutida.

Notas:

*As medições foram feitas com sonómetro / analisador sonoro homologado e de classe de precisão 1, com respetivo calibrador acústico. Analisador marca 01dB modelo Symphonie com calibrador acústico marca Rion modelo NC-74

O nosso agradecimento à NoiseLab pela sua imprescindível colaboração.

Fotos associadas às medições: