Início » Centros de dados podem ser aliados da transição verde, mas arriscam ser predadores de recursos sem retorno social
A ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável alerta para o facto de o novo enquadramento aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 70/2026 poder colocar Portugal na rota da expansão europeia de data centers, mas não assegurar, com a robustez necessária, que estas infraestruturas contribuam efetivamente para a transição climática, a eficiência no uso de recursos e o desenvolvimento equilibrado do território.
A concretizar-se a quadruplicação da procura de ponta para 41GW para responder a todos os pedidos de ligação realizados por iniciativas de desenvolvimento de data centers em Portugal, e supondo que essa procura seria correspondida através de produção fotovoltaica, isso corresponderia à ocupação de cerca de 3% do território nacional com painéis fotovoltaicos, a um consumo de água correspondente ao de toda a área metropolitana de Lisboa e à multiplicação por 40 da capacidade de armazenamento em baterias prevista no Plano Nacional de Energia e Clima que é de 2 GW.
A decisão do Governo reconhece, de forma acertada, os data centers como infraestruturas críticas para a economia digital e para a competitividade. No entanto, ao privilegiar mecanismos de simplificação administrativa e atração de investimento, a resolução deixa em aberto questões fundamentais sobre o uso sustentável de energia, água e território, num momento em que a transição energética exige respostas mais estruturadas e equitativas à procura já existente de setores como os Transportes, a Indústria e os Edifícios.
Segundo a Agência Internacional de Energia e a Comissão Europeia, os data centers representam atualmente cerca de 1,5% do consumo mundial de eletricidade, o equivalente a mais de 400 TWh por ano, podendo ultrapassar 900 TWh até 2030. Na União Europeia (UE), o setor já consome cerca de 1,4% a 1,6% da eletricidade, com crescimento acelerado impulsionado pela inteligência artificial e pela digitalização da economia.
Em Portugal, apesar da ausência de dados oficiais consolidados — lacuna que a ZERO considera dever ser rapidamente superada — as projeções apontam para um cenário em que os data centers e outras cargas emergentes poderão representar até 15% a 20% do consumo elétrico nacional na próxima década, num sistema elétrico que hoje consome cerca de 53 TWh/ano. Acresce que os pedidos de ligação à rede elétrica associados a data centers já representam mais de 70% da potência solicitada à REN, revelando uma pressão sem precedentes sobre o sistema energético.
Perante esta realidade, a ZERO sublinha que a questão central não é se Portugal deve acolher data centers, mas sim para que servem, em que condições operam e como se integram no território e na economia.
Os data centers podem desempenhar um papel positivo na transição ecológica, nomeadamente ao suportar soluções digitais que aumentam a eficiência no uso de recursos — como redes energéticas inteligentes, mobilidade partilhada, otimização logística ou serviços públicos digitais. Contudo, sem uma orientação estratégica, irão gerar um efeito “ricochete”, intensificando padrões de consumo energético e material associados a atividades de baixo valor social e/ou elevado impacto ambiental, enquanto geram pressão adicional sobre o território. Competindo pelo acesso à energia renovável, em particular a produzida com recurso ao solar fotovoltaico a preços competitivos, os data centers poderão impedir indiretamente a necessária redução dos preços da eletricidade além de artificializar muitos milhares de hectares de solos que hoje nos prestam diversos serviços de ecossistemas, agravando ainda mais a situação de alarme social que já ocorre em muitas regiões. Além disso, acarretam o risco de tornar as áreas de Aceleração para Renováveis claramente insuficientes face à necessidade de reduzir emissões em linha com o Acordo de Paris e simultaneamente de desenvolver a Estratégia Industrial Verde.
A resolução aprovada recentemente falha ao não estabelecer critérios vinculativos quanto à adicionalidade de energia renovável, ao uso de água não potável, à eficiência energética mínima, à reutilização de calor residual ou à contribuição para a flexibilidade do sistema elétrico. A experiência europeia demonstra que indicadores como a eficiência energética, a eficiência do uso de água e a taxa de reaproveitamento de calor continuam longe de níveis ótimos, sendo que, em 2024, menos de 2% do calor residual dos data centers na UE era efetivamente reutilizado.
A ZERO considera igualmente crítico garantir a justiça no acesso aos recursos digitais e físicos. Os data centers consomem energia, água e paisagem que pertencem à sociedade no seu conjunto. É, por isso, essencial assegurar que estes recursos são mobilizados para atividades que promovam o bem-estar coletivo, a inovação e a coesão social, e não apenas para a exportação de capacidade computacional ou para modelos económicos de baixa utilidade pública.
Do ponto de vista territorial, a ZERO alerta para o risco de criação de enclaves energéticos desligados das economias locais. Em alternativa, defende a integração dos data centers em condomínios industriais sustentáveis, onde exista simbiose com outras atividades: aproveitamento de calor residual, produção local de energia renovável com armazenamento, utilização de água do mar ou reciclada e articulação com cadeias de valor industriais e científicas.
Por fim, importa sublinhar que Portugal não beneficia de condições climáticas particularmente favoráveis ao arrefecimento destas infraestruturas, o que reforça a necessidade de critérios exigentes de localização e eficiência. A ausência desses critérios compromete a coerência da política pública com a Lei de Bases do Clima e com a futura Estratégia Industrial Verde.
Para a ZERO, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 70/2026 constitui um ponto de partida útil, mas exige uma regulamentação complementar urgente que assegure que o desenvolvimento dos data centers em Portugal não fomente uma nova expansão energética, não crie obstáculos à necessária transição energética, e que seja compatível com a proteção dos recursos naturais e com um modelo económico justo, eficiente e territorialmente equilibrado, coerente com a formulação de uma Estratégia Industrial Verde em elaboração que se espera amplamente participada pelo conjunto dos parceiros sociais e económicos do território.
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