Início » Contrato Climático de Lisboa 2030: medidas bem-intencionadas são claramente insuficientes
A ZERO participou na consulta pública do Contrato Climático Cidade de Lisboa 2030 (CCC Lisboa 2030) – um instrumento estratégico através do qual Lisboa define compromissos, medidas e investimentos para atingir a neutralidade climática até 2030 –, cujo prazo terminou no passado dia 14 de fevereiro, tendo submetido um parecer com contributos e recomendações destinadas a reforçar a sua credibilidade, eficácia e justiça social.
A ZERO reconhece o valor político e simbólico da iniciativa e a importância de Lisboa assumir metas ambiciosas de descarbonização, mas considera que a proposta peca pela ausência de quantificação rigorosa dos impactos e custos das medidas, pela falta de prioridades claras baseadas na eficácia climática, pela insuficiente redução estrutural do automóvel privado, pela insuficiente integração da justiça social e por lacunas na abordagem a setores como aviação, porto marítimo e compensações de emissões.
Entre os principais pontos identificados, a ZERO destaca a insuficiente quantificação dos resultados das medidas identificadas e a ausência de decisão quanto às mesmas baseada no seu impacto climático e na relação custo-eficácia. A proposta CCC Lisboa 2030 apresenta muitas medidas e um investimento global elevado, mas não indica, medida a medida, quantas emissões se evitam, a que custo e em que prazos. Sem esta matriz de custo-eficácia, torna-se impossível escolher o que é realmente transformador, corrigir o que falha e proteger o interesse público.
A ZERO defende que a versão final do plano inclua uma quantificação obrigatória dos resultados de cada ação, com custos de investimento, cronograma e operacionalização quando aplicável, mostrando metas anuais e mecanismos de correção de trajetória. Um “contrato” que não é mensurável não pode ser cobrado ao executor nem escrutinado pelos cidadãos, deturpando o sentido do conceito.
No sector da mobilidade, o maior contribuinte para as emissões urbanas, a ZERO considera positiva a intenção de promover a eletrificação, o transporte coletivo e a mobilidade ativa, mas alerta para a necessidade de se ser muito mais ambicioso nas políticas estruturais de redução da dependência do automóvel privado. A ZERO sublinha que a neutralidade climática em Lisboa em 2030 deve ser atingida com uma forte redução da dependência do automóvel individual, libertando espaço público para transporte coletivo, a mobilidade ativa e a arborização da cidade. Para isso, é indispensável apostar numa rede ininterrupta de corredores exclusivos para transporte público, zonas de acesso automóvel condicionado e gestão do estacionamento que desincentive a entrada de não-residentes.
A eletrificação deve dar prioridade aos transportes públicos e veículos de uso intensivo com maior impacto climático e social – autocarros, pesados de mercadorias, carrinhas de distribuição, táxis e TVDE –, e não concentrar recursos em subsidiar trocas de automóveis a combustão por elétricos de pouca utilização que ocupam espaço público escasso. Investimentos pesados e de longo prazo são precisos e justificáveis, mas precisam de ser desenhados com elevada conectividade, integração metropolitana e resultados mensuráveis, caso contrário podem traduzir-se em custos enormes para ganhos climáticos reduzidos.
A ZERO chama ainda a atenção para a importância de reforçar a dimensão social e de justiça climática do contrato, assegurando que as medidas contemplam de forma clara as populações mais vulneráveis e contribuem para uma transição justa e inclusiva. A aceitação social das políticas climáticas será determinante para o sucesso das metas estabelecidas, e para isso a redução de emissões tem de melhorar a vida das pessoas, sobretudo das mais vulneráveis. A ZERO valoriza o foco na pobreza energética e na reabilitação mostrada na proposta de CCC Lisboa 2030, mas considera que precisa de metas mais concretas e ambiciosas, planeamento de execução realistas e a concretização de instrumentos que acelerem o conforto térmico com impacto verificável. Em paralelo, as comunidades de energia e o autoconsumo coletivo devem ser operacionalizados com integração explícita de armazenamento e apoio à eletrificação de frotas de transporte comunitárias, garantindo maior eficiência do sistema, menores custos e benefícios sociais claros.
A ZERO considera grave a ausência de medidas para lidar com o impacto crescente da aviação associada à cidade e defende que o CCC Lisboa 2030 deve incluir ações explícitas também sobre ruído e qualidade do ar.
No caso do porto marítimo, a eletrificação do consumo de energia dos cruzeiros em escala é importante, mas insuficiente face ao crescimento da atividade, sendo necessário um mandato ambicioso de emissões zero em porto e planeamento de armazenamento para evitar sobrecargas da rede elétrica e garantir reduções efetivas.
Quanto às emissões residuais (as emissões que sobram), a ZERO entende que qualquer recurso a mecanismos de ‘compensação’ deve ser mínimo, e a que existir deve implicar a mineralização rápida do carbono. Para além disso, o plano precisa de justificar os valores assumidos, definir critérios de integridade ambiental, mostrar a perenidade das compensações e limitar ao máximo o recurso a mercados voluntários, sob pena de comprometer a sua transparência, credibilidade e de não garantir reduções efetivas de emissões.
A ZERO reafirma a sua disponibilidade para continuar a colaborar com a Câmara Municipal de Lisboa e restantes entidades na melhoria do Contrato Climático Cidade de Lisboa 2030, contribuindo para que Lisboa disponha de um instrumento robusto, transparente e orientado para resultados, capaz de assegurar reduções reais de emissões e uma melhor qualidade de vida para os cidadãos.
| Cookie | Duração | Descrição |
|---|---|---|
| cookielawinfo-checkbox-analytics | 11 months | This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Analytics". |
| cookielawinfo-checkbox-functional | 11 months | The cookie is set by GDPR cookie consent to record the user consent for the cookies in the category "Functional". |
| cookielawinfo-checkbox-necessary | 11 months | This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookies is used to store the user consent for the cookies in the category "Necessary". |
| cookielawinfo-checkbox-others | 11 months | This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Other. |
| cookielawinfo-checkbox-performance | 11 months | This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Performance". |
| viewed_cookie_policy | 11 months | The cookie is set by the GDPR Cookie Consent plugin and is used to store whether or not user has consented to the use of cookies. It does not store any personal data. |