Início » COP31 Clima: ZERO e Oikos apelam a prazos concretos para o abandono dos combustíveis fósseis
A 31.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP31) decorre de 9 a 20 de novembro em Antália, na Turquia, com uma presidência partilhada inédita: a Turquia acolhe e preside à conferência, enquanto a Austrália preside às negociações. As duas presidências chamam-lhe a “COP da implementação”. Para a ZERO e a Oikos, o diagnóstico está certo: já não faltam metas; falta execução. Independentemente da ambição, uma baixa implementação nunca vai levar a bons resultados.
Antália acontece num contexto internacional mais difícil do que o de Belém. A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris tornou-se efetiva este ano, a crise energética associada às guerras no Médio Oriente e na Ucrânia devolveu poder negocial aos grandes produtores de petróleo e gás e as reuniões de Bona, em junho, terminaram sem acordo em matérias centrais, como o futuro do Programa de Trabalho sobre Mitigação, a Adaptação e a Transição Justa, todas remetidas para Antália. A pré-COP, realizada no Pacífico, em outubro, terminou com sinais contraditórios em matéria de combustíveis fósseis e de financiamento.
A urgência é quantificável. Segundo o Emissions Gap Report 2026 do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, com as políticas em vigor, o planeta caminha para cerca de 2,8 °C de aquecimento até 2100 e, mesmo com o cumprimento integral dos compromissos nacionais, para 2,6 °C. Para limitar ao mínimo a já inevitável ultrapassagem do 1,5 °C, as emissões globais teriam de diminuir 18 % até 2030 e 45 % até 2035, face a 2025, mas os compromissos atuais só garantem reduções de 5 % a 8 % e de 11 % a 15 %, respetivamente. Cada aumento de uma décima de grau evitado conta.
Entre os principais temas em negociação em Antália destacam-se:
As presidências designaram ainda pares de ministros para conduzir as consultas políticas nos temas mais difíceis: Índia e Alemanha na mitigação, Serra Leoa e Reino Unido na adaptação, Filipinas e França no financiamento, Polónia e México na transição justa e Palau e Canadá no oceano.
A COP31 deve:
Estas exigências são partilhadas por outras organizações internacionais. A CAN Europa, de que a ZERO é membro, considerou que a posição da União Europeia para a COP31, aprovada pelos ministros do Ambiente a 12 de outubro, reconhece os desafios, mas continua sem um caminho concreto para eliminar de forma justa os combustíveis fósseis, aumentar o financiamento para a adaptação e concretizar a transição justa. Em junho, quase uma centena de organizações, entre as quais a WWF, a Greenpeace e as redes CAN da Austrália e da Turquia, pediram às presidências que dessem o exemplo, com roteiros nacionais de saída dos combustíveis fósseis, incluindo uma estratégia turca de abandono do carvão. A Carbon Market Watch tem alertado para as fragilidades das regras dos mercados de carbono do artigo 6.º do Acordo de Paris, que a ZERO e a OIKOS consideram que não podem substituir reduções efetivas de emissões.
A União Europeia é o maior contribuinte mundial de financiamento climático, mas as conclusões aprovadas pelos ministros das Finanças a 9 de outubro ficam aquém: não indicam como a Europa vai cumprir a sua parte. Defendemos que a UE apresente um plano plurianual credível, garanta no próximo orçamento europeu um instrumento Europa Global robusto, ponha fim ao financiamento público dos combustíveis fósseis e lidere a tributação dos lucros desta indústria. Não se pode pedir ambição aos outros sem pôr dinheiro em cima da mesa.
Portugal tem credibilidade para ter uma voz forte: não usa carvão para produzir eletricidade desde 2021, a Lei de Bases do Clima proíbe novas concessões de petróleo e gás, é membro da Beyond Oil and Gas Alliance, esteve presente em Santa Marta e foi pioneiro na conversão de dívida em investimento climático, com Cabo Verde. Em Antália, a ZERO e a Oikos consideram que Portugal deve:
Esperamos que Portugal esteja na vanguarda e seja coerente na aplicação da Lei de Bases do Clima, cujo Conselho para a Ação Climática (CAC) ainda não está operacional. Apesar de assumida a antecipação da neutralidade carbónica de 2025 para 2045, o Roteiro ainda não foi apresentado, discutido e aprovado. Também a nova estratégia de adaptação também não está em vigor: mantém-se a ENAAC 2020, prorrogada até 31 de dezembro de 2026 para garantir o acesso ao financiamento do Portugal 2030.
Esta coerência é tanto mais necessária quanto os desafios internos continuam a ser grandes. Em 2024, Portugal emitiu 51,5 MtCO₂e (‑3% face a 2023), mas esta redução depende sobretudo da eletricidade renovável e de fatores conjunturais, enquanto os transportes (35,2% das emissões) continuam a crescer. Para cumprir a meta de ‑55% face a 2005, o país terá de acelerar para quase 5% de redução ao ano até 2030.
As duas organizações irão acompanhar de perto a COP31. A ZERO estará presente em Antália, Turquia, entre 14 e 21 de novembro, tendo em conta que a conferência se poderá prolongar para além do dia final previsto. A Oikos estará presente a partir do dia 15 de novembro, também se mantendo no evento até ao dia 21.
Zero e Oikos irão dinamizar a Rede Lusófona para o Clima, que apresentou o Manifesto Lusófono para a COP31, centrado na justiça climática e inclusão social, no financiamento para a adaptação, incluindo a proposta de um Fundo Lusófono para a Ação Climática e numa transição energética justa.
As duas organizações acompanharão diariamente as negociações e manterão contacto com a delegação portuguesa. A ZERO acompanhará também o People’s Climate Summit, que decorre em Antália de 14 a 18 de novembro.
Este ano, as duas associações organizam eventos no Pavilhão de Portugal:
Francisco Ferreira, Presidente da ZERO, sublinha que “Não espero uma COP de grandes anúncios, mas Antália tem de provar que o multilateralismo climático ainda produz resultados concretos. No que respeita ao abandono dos combustíveis fósseis, o Dubai decidiu o quê; Santa Marta começou a discutir o como; Antália tem de começar a responder ao quando.”
José Luís Monteiro, Coordenador de Projetos da OIKOS, destaca que “Enquanto as petrolíferas batem recordes de lucro, os países mais vulneráveis esperam por um Fundo de Perdas e Danos que ainda não desembolsou um cêntimo. Mais do que uma questão ambiental, a crise climática é cada vez mais uma questão de direitos humanos e de justiça global: quem mais tem lucrado com ela tem que ser responsabilizado e quem mais sofre com ela tem que ser protegido.”
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