Início » Estratégia Nacional de Educação Ambiental 2030 quer ser um passo em frente — mas fica a meio caminho
ZERO reconhece os avanços da nova Estratégia Nacional de Educação Ambiental 2030 relativamente à ENEA 2020, mas aponta lacunas estruturais e operacionais que, se não corrigidas, comprometem a sua eficácia transformadora
No âmbito da consulta pública da proposta de Estratégia Nacional de Educação Ambiental 2030 (ENEA 2030), que terminou dia 16 de junho, a ZERO apresentou um parecer que reconhece os progressos do documento relativamente à ENEA 2020, mas identifica lacunas que, se não corrigidas, poderão comprometer a ambição transformadora que Portugal precisa nesta área. Para a ZERO, a nova estratégia melhora o discurso, ao incorporar a linguagem da transformação, mas continua sem a operacionalizar de forma suficiente: o documento é, em partes relevantes, descritivo onde deveria ser prescritivo, genérico onde deveria ser específico e retórico onde deveria assumir compromissos institucionais claros.
A ZERO reconhece que a nova estratégia representa um avanço real face à ENEA 2020. O compromisso estratégico central — a educação ambiental como “processo e prática transformadora que, de forma ética, participativa e inclusiva, constrói uma cidadania justa e sustentável” — é mais ambicioso e mais alinhado com os referenciais internacionais de educação para a sustentabilidade. A incorporação da responsabilidade intergeracional, a adoção da abordagem “Uma Só Saúde” e a diversificação dos públicos contemplados — influenciadores digitais, operadores de justiça, forças de segurança, comunidades imigrantes e turistas — constituem melhorias relevantes. A ZERO saúda igualmente a Medida 17 (Promoção da Participação Pública), com referência expressa à Convenção de Aarhus, a Medida 5 (Reconhecimento do Voluntariado Ambiental) e as Medidas 18 e 19 relativas à formação ambiental do setor empresarial e da administração pública.
A lacuna mais grave é, paradoxalmente, todo o processo que levou à elaboração da proposta que está agora em consulta pública. Não nos parece que um documento que elege a participação como princípio central tenha resultado de um processo suficientemente participado, sendo que, de início, deveriam ter sido encetados todos os esforços para que a proposta fosse alvo de uma dinâmica de cocriação com os diferentes atores, dedicando espaços e tempo para o efeito. Não foi isso que aconteceu, pelo que é provável se tenha perdido a oportunidade de construir algo mais robusto e proativo.
A ZERO considera que a proposta de ENEA 2030 compromete a sua credibilidade de execução ao não definir, desde logo, indicadores de implementação, metas quantificadas, calendários e mecanismos de monitorização. A mesma fragilidade verifica-se no financiamento. Apesar de enunciar princípios como a plurianualidade e a diversificação de fontes, a estratégia não estabelece compromissos concretos, estimativas de investimento ou dotações mínimas que garantam a sua concretização. A experiência da ENEA 2020 evidencia que as medidas menos executadas foram precisamente aquelas sem métricas claras de acompanhamento, sendo igualmente o financiamento identificado como um fator crítico. Neste contexto, sem indicadores, metas e financiamento associado, a ENEA 2030 arrisca reduzir-se a um conjunto de declarações de intenção, desprovido de instrumentos efetivos de implementação.
Para além deste problema metodológico-estrutural, a ZERO identifica um conjunto de insuficiências temáticas e operacionais que fragilizam a estratégia:
A ZERO apela ao Ministério do Ambiente e Energia e à Agência Portuguesa do Ambiente que a versão final da ENEA 2030 incorpore agora os contributos recebidos nesta agora mais alargada consulta pública, defina os indicadores de execução e estabeleça os compromissos financeiros para a mesma seja o instrumento transformador que Portugal precisa. Para isso, a versão final terá de ser genuinamente eficaz, mensurável e estruturalmente coerente com os princípios que proclama.
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