Início » PARECER – CENTRAL DE VALORIZAÇÃO DE BIORRESÍDUOS (CVB) DA LIPOR
No âmbito da consulta pública do Estudo de Impacte Ambiental (EIA) da Central de Valorização de Biorresíduos da LIPOR (CVB), a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável vem apresentar o seu parecer.
O proponente do projeto é a LIPOR – Associação de Municípios para a Gestão Sustentável de Resíduos do Grande Porto, sendo a Autoridade de AIA a CCDR-N. O EIA foi elaborado pelo IDAD – Instituto do Ambiente e Desenvolvimento. A CVB será implantada no Polo I da LIPOR, em Baguim do Monte/Ermesinde (Valongo), numa área de cerca de 7,3 ha.
O projeto assenta numa solução de digestão anaeróbia (via húmida) complementada por compostagem do digerido, com produção de biogás e upgrading para biometano, prevendo-se a sua injeção na rede de gás natural. Trata-se, em princípio, de uma opção ambientalmente positiva, por reduzir emissões de metano associadas à deposição em aterro, por permitir substituir gás fóssil e por reduzir a incineração de resíduos recicláveis.
De acordo com o balanço mássico e a descrição do projeto, a capacidade global de tratamento prevista é de 65 000 t/ano de resíduos alimentares (origem doméstica e canal HORECA), a que se juntam até 10 000 t/ano de resíduos verdes, num total máximo de 75 000 t/ano.
A CVB é apresentada como complementar à Central de Valorização Orgânica (CVO) atualmente em funcionamento na LIPOR I, a qual valoriza cerca de 60 000 t/ano de biorresíduos provenientes de recolha seletiva. Estão previstas sinergias operacionais (material estruturante, gestão de efluentes e reutilização de água tratada), que devem ser plenamente demonstradas no projeto de execução e no Relatório de Conformidade Ambiental do Projeto de Execução (RECAPE).
A LIPOR dispõe igualmente de uma central de valorização energética (incineradora) para o tratamento de resíduos urbanos indiferenciados. Ao desviar biorresíduos da fração indiferenciada para a CVB, o projeto contribui para reduzir a humidade e a fração biodegradável enviada para valorização energética, o que é coerente com a hierarquia de resíduos (prioridade à preparação para reutilização/reciclagem e valorização orgânica face à incineração).
No entanto, esta alteração de fluxos tem um efeito sistémico: liberta capacidade de incineração que poderá ser ocupada por resíduos urbanos de sistemas de gestão de resíduos vizinhos, caso não existam salvaguardas.
Impacto no PCI (Poder Calorifico Inferior) e pressão sobre frações recicláveis (papel/plástico). Considerando que a incineradora da LIPOR opera com um PCI mínimo de referência na ordem dos 6–7 MJ/kg, a retirada de 65 000 t/ano de biorresíduos (+/- 20% do total atualmente incinerado) — uma fração tipicamente muito húmida e de baixo PCI — tenderá a aumentar o PCI médio do resíduo remanescente encaminhado para incineração. Assumindo, de forma conservadora, um PCI médio de operação próximo de 6,5 MJ/kg e valores típicos para biorresíduos alimentares na ordem de 4–5,5 MJ/kg (base “fresco”), a remoção de 65 000 t/ano pode traduzir-se num aumento do PCI médio do fluxo incinerado de cerca de +0,25 a +0,52 MJ/kg, aproximando-o (ou ultrapassando-o) do patamar de robustez operacional frequentemente indicado em guias técnicos para combustão autossustentada. Para manter o mesmo PCI médio (isto é, neutralizar este aumento por via de desvio de frações de elevado PCI), um balanço energético simplificado indica que seria necessário retirar adicionalmente da incineração cerca de 4 000–12 000 t/ano de mistura papel/plástico (ordem de grandeza), ou, em extremos, cerca de 10 000–22 000 t/ano se o ajustamento recaísse sobretudo sobre papel/cartão (PCI típico 13–15 MJ/kg) ou apenas 3 000–6 000 t/ano se recaísse sobretudo sobre plásticos (PCI típico 30–45 MJ/kg). Esta leitura é particularmente relevante porque papel/cartão e plásticos são materiais prioritários para separação e reciclagem, pelo que qualquer “necessidade” operacional de ajuste do PCI não pode ser feita à custa da sua retenção no fluxo para valorização energética, antes devendo reforçar-se um plano integrado de desvio de recicláveis e de redução do encaminhamento para incineração, em linha com a hierarquia de resíduos.
Em suma, pode ser libertada capacidade de incineração entre 78 a 99 mil t/ano. No entanto isso revela, como é comumente sabido, a estrita interdependência dos teores das diferentes frações a incinerar onde um desvio significativo de uma fração para a reciclagem compromete as restantes. A incineração não é compatível com a reciclagem, a menos que a instalação seja tecnicamente convertida para queimar somente a fração resto (material combustível sobrante/rejeitado depois das operações de triagem e compostagem, com PCI elevado).
O projeto deve ser analisado no quadro da hierarquia de resíduos e das metas nacionais e europeias de prevenção, recolha seletiva e reciclagem, evitando o risco de bloqueio tecnológico associado à manutenção (ou aumento) da dependência de infraestruturas de incineração.
Face ao exposto, qualquer decisão favorável deverá estar condicionada a demonstração inequívoca de que a implementação da CVB se traduz em desvio efetivo de resíduos da incineração e em aumento líquido da reciclagem/valorização orgânica, e não apenas em redistribuição de fluxos dentro do sistema.
Reconhecendo o mérito ambiental do projeto, a ZERO considera que a decisão de licenciamento deve ser favorável apenas se forem asseguradas, de forma vinculativa, condições que evitem efeitos adversos relevantes e garantam ganhos efetivos de circularidade.
Neste contexto, o parecer da ZERO é de que o projeto poderá ser aprovado desde que sejam integradas as condicionantes acima, assegurando que a CVB contribui para reduzir a incineração e aumentar a valorização orgânica e a reciclagem, sem libertar capacidade de incineração para queimar materiais que devem ser reciclados.
| Fonte | Resumo do ponto que sustenta |
|---|---|
| Rand, T., Haukohl, J., & Marxen, U. (2000). Municipal solid waste incineration: Requirements for a successful project (World Bank Technical Paper No. 462). World Bank. | Ordem de grandeza de PCI mínimo / janela energética para incineração de RU com combustão robusta/autossustentada; enquadra a relevância de manter condições energéticas adequadas na operação. |
| Banks, C. J., Heaven, S., Zhang, Y., & Baier, U. (2018). Food waste digestion: Anaerobic digestion of food waste for a circular economy. IEA Bioenergy Task 37. | Caracterização de biorresíduos (incl. fração alimentar) como material tipicamente muito húmido; suporta a ideia de baixo PCI “fresco” e de que alterações na fração húmida têm implicações energéticas. |
| Komilis, D., Kissas, K., & Symeonidis, A. (2014). Effect of organic matter and moisture on the calorific value of solid wastes: An update of the Tanner diagram. Waste Management, 34(2), 249–255. | Demonstra quantitativamente o efeito de humidade e teor orgânico no PCI e na região de autossustentação da combustão (base técnica para afirmar que remover frações húmidas altera o comportamento energético do mix). |
| European Commission. (2006). Integrated pollution prevention and control: Reference document on best available techniques for waste incineration (Waste Incineration BREF). Joint Research Centre (JRC), European IPPC Bureau. | Referência técnica BAT/BREF que enquadra como PCI/NCV e humidade influenciam a operação de incineradoras e a necessidade de controlo/estabilidade do combustível de entrada. |
| European Commission. (2011). Guidelines on the R1 energy efficiency formula in Annex II of Directive 2008/98/EC (not legally binding). | Enquadra a valorização energética (R1), reforça a importância da hierarquia de resíduos e dá suporte ao argumento de que a gestão deve privilegiar reciclagem e eficiência de recursos, não “otimização” via queima de recicláveis. |
| European Parliament & Council of the European Union. (2008). Directive 2008/98/EC of the European Parliament and of the Council of 19 November 2008 on waste and repealing certain Directives. Official Journal of the European Union. | Base jurídica para a hierarquia de resíduos; fundamenta que papel/cartão e plásticos são materiais-alvo de separação e reciclagem, não devendo ser retidos para fins operacionais da incineração. |
| Rezaei, H., Yazdan Panah, F., Lim, C. J., & Sokhansanj, S. (2020). Pelletization of refuse-derived fuel with varying compositions of plastic, paper, organic and wood. Sustainability, 12(11), 4645. | Dá ordens de grandeza típicas de PCI de papel/cartão (~15,8 MJ/kg, base seca) e plásticos (~46,5 MJ/kg, base seca), suportando que são frações de elevado PCI e que pequenas massas podem alterar o balanço energético do mix. |
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