Início » ZERO defende ponte exclusivamente ferroviária sobre o Douro e menos estacionamento nas estações da Alta Velocidade
A ZERO avaliou o Relatório de Conformidade Ambiental do Projeto de Execução (RECAPE) do troço Porto–Oiã da Linha Ferroviária de Alta Velocidade e considera que representa uma evolução positiva face às soluções anteriormente apresentadas. A reposição da estação de Vila Nova de Gaia em Santo Ovídio, em configuração subterrânea prevista na Declaração de Impacte Ambiental responde a preocupações que haviam motivado a não conformidade do anterior desenvolvimento do projeto.
A localização da estação de Gaia em Santo Ovídio constitui uma opção significativamente mais favorável do ponto de vista da mobilidade sustentável, permitindo uma articulação direta com a rede do Metro do Porto e potenciando a utilização do transporte coletivo por parte dos futuros utilizadores da alta velocidade.
A experiência internacional demonstra que o sucesso das redes ferroviárias de alta velocidade depende da qualidade da sua integração com os sistemas urbanos e metropolitanos de transporte coletivo. A existência de interfaces eficientes reduz a dependência do automóvel, aumenta a área de influência das estações e maximiza os benefícios económicos, sociais e ambientais do investimento público realizado.
A ZERO considera, por isso, fundamental assegurar a melhor integração possível entre a estação de Santo Ovídio e as linhas Amarela e Rubi do Metro do Porto, bem como garantir que a estação de Campanhã funcione como um verdadeiro nó intermodal, articulando alta velocidade, ferrovia convencional, metro, autocarros e modos ativos.
Apesar dos aspetos positivos identificados, o RECAPE evidencia igualmente um aumento relevante de vários impactes territoriais relativamente às soluções anteriormente avaliadas. A área diretamente afetada pelo projeto aumentou, os volumes de escavação e movimentação de terras cresceram significativamente e o número de habitações e atividades económicas afetadas é agora superior ao inicialmente previsto.
Estes resultados parecem estar relacionados, em grande medida, com a redução da extensão dos túneis de Negrelos e de Gaia. A ZERO considera que a fundamentação técnica, económica e ambiental desta opção deve ser mais claramente demonstrada, garantindo que a redução dos custos de construção não ocorre à custa de um agravamento desproporcionado dos impactes sociais e territoriais.
A ZERO reitera a sua oposição à manutenção de um tabuleiro rodoviário associado à nova ponte sobre o rio Douro. Num contexto de emergência climática, de necessidade de redução das emissões do setor dos transportes e de forte investimento na ferrovia, a criação de capacidade rodoviária adicional constitui uma opção contraditória com os objetivos da política pública.
A evidência científica demonstra que novas infraestruturas rodoviárias tendem a gerar procura adicional de tráfego, anulando parte dos benefícios esperados em termos de congestionamento e contribuindo para o aumento das emissões e da dependência automóvel, pelo que a nova travessia deverá assumir uma vocação exclusivamente ferroviária, reforçando o papel estruturante da alta velocidade e da rede ferroviária convencional na mobilidade da Área Metropolitana do Porto.
O RECAPE prevê a construção de um parque de estacionamento subterrâneo com cerca de 620 lugares na estação de Campanhã. A ZERO entende que esta solução não se encontra alinhada com os objetivos nacionais e europeus de descarbonização dos transportes nem com o papel que uma estação ferroviária de alta velocidade deve desempenhar na estruturação da mobilidade sustentável.
A criação de grandes bolsas de estacionamento tende a incentivar deslocações de acesso em automóvel, aumentando o congestionamento urbano, a ocupação do espaço público e as emissões associadas às viagens de primeira e última milha. Em contrapartida, os investimentos devem privilegiar a melhoria da oferta de transporte coletivo, a criação de percursos pedonais seguros e acessíveis, a instalação de estacionamento seguro para bicicletas e a integração com sistemas de mobilidade partilhada.
A ZERO defende, por isso, uma redução substancial da capacidade de estacionamento prevista e o reforço das soluções de acesso sustentável às estações.
A ZERO reconhece a importância estratégica da Linha Ferroviária de Alta Velocidade Porto–Lisboa para a transferência modal do transporte rodoviário e aéreo para a ferrovia. Contudo, considera que os benefícios ambientais e climáticos deste investimento serão tanto maiores quanto mais forte for a sua integração com o transporte coletivo urbano, quanto menor for a dependência do automóvel no acesso às estações e quanto mais claramente forem evitadas infraestruturas rodoviárias incompatíveis com os objetivos de neutralidade carbónica.
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