Início » ZERO alerta para o enorme impacte ambiental do maior Campeonato do Mundo de sempre
Com o arranque do Campeonato do Mundo de Futebol FIFA 2026, que decorre nos Estados Unidos, Canadá e México, a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável considera que este evento constitui um exemplo paradigmático das dificuldades que a sociedade enfrenta para compatibilizar a crescente dimensão dos megaeventos internacionais com os objetivos globais de sustentabilidade e de combate às alterações climáticas.
O Mundial de 2026 será o maior da história da competição. Pela primeira vez participarão 48 seleções nacionais, num total de 104 jogos disputados em 16 cidades distribuídas por três países. Apesar de muitos dos estádios já existirem e de os impactes associados à construção de novas infraestruturas serem relativamente limitados quando comparados com outras edições, a dimensão geográfica do torneio e o elevado número de participantes e espectadores farão deste campeonato um dos eventos desportivos com maior pegada ambiental alguma vez realizados.
As estimativas atualmente disponíveis apontam para emissões totais que poderão situar-se entre cerca de 8 e 9 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, um valor que se aproxima de um quinto do valor anual das emissões de Portugal. Trata-se de um aumento muito significativo face a anteriores campeonatos do mundo, refletindo sobretudo a expansão do torneio e a dispersão geográfica das cidades anfitriãs.
Ao contrário do que aconteceu no Qatar em 2022, onde praticamente todos os jogos decorreram numa área geográfica relativamente reduzida, o Mundial de 2026 obriga a deslocações entre cidades separadas por milhares de quilómetros. Como exemplo, a distância entre Vancouver, no Canadá, e Miami, nos Estados Unidos, ultrapassa os 4500 quilómetros, enquanto outras ligações frequentes entre cidades anfitriãs implicam igualmente percursos de grande extensão. Esta realidade significa que milhões de adeptos, jornalistas, equipas técnicas, patrocinadores e elementos da organização recorrerão inevitavelmente ao transporte aéreo, responsável pela esmagadora maioria das emissões associadas ao evento. Estima-se que entre 85% e 90% da pegada carbónica do torneio resulte precisamente das deslocações dos participantes e espectadores.
O Mundial de 2026 decorrerá igualmente num contexto em que as alterações climáticas já não constituem uma ameaça futura, mas uma realidade presente. Várias das cidades anfitriãs localizam-se em regiões onde as temperaturas estivais atingem frequentemente valores muito elevados e onde os episódios de calor extremo combinado com enorme humidade se têm tornado mais frequentes e intensos. Cidades como Miami, Houston, Dallas, Monterrey ou Guadalajara poderão enfrentar condições meteorológicas particularmente exigentes para atletas e espectadores. Uma parte significativa dos jogos poderão ocorrer em condições de elevado stress térmico, aumentando os riscos para a saúde, reduzindo o desempenho físico dos atletas e exigindo medidas adicionais de adaptação. Estas incluem alterações de horários, reforço dos sistemas de arrefecimento, criação de zonas de sombra e hidratação, bem como um maior consumo de energia para climatização dos estádios, espaços interiores e infraestruturas de apoio. A estas preocupações acrescem ainda os impactes associados ao aumento do consumo de água, à produção de resíduos urbanos, à utilização intensiva de recursos e à pressão exercida sobre os sistemas de transporte e serviços urbanos das cidades anfitriãs.
Para a ZERO, o Mundial de 2026 evidencia uma contradição. Num momento em que governos, empresas e cidadãos são chamados a reduzir emissões, promover a eficiência energética e limitar os impactes ambientais das suas atividades, os maiores eventos globais continuam a crescer em dimensão, complexidade e intensidade carbónica. Esta tendência é difícil de conciliar com os compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris e com a necessidade urgente de reduzir as emissões globais de gases com efeito de estufa ao longo desta década. A FIFA anunciou uma estratégia de sustentabilidade incluindo pilares como os ambiental, social, económico e de governança, incluindo aspetos como a eficiência energética, gestão de resíduos e contabilização das emissões, mas existem fortes dúvidas sobre a eficácia destas medidas perante a escala do evento. Acrescente-se ainda no pilar social a desigualdade causada pelos elevados preços dos bilhetes e a prioridade para a FIFA ter sido a do lucro através do envolvimento de um maior número de equipas. Em vez do futebol ser um exemplo e uma oportunidade para mobilizar todos os adeptos e a sociedade à escala mundial para combater as grandes crises como o uso excessivo de recursos ou as alterações climáticas, estamos a agravar estes problemas.
A realização do Mundial de 2030 em Portugal, Espanha e Marrocos deve, por isso, beneficiar das lições que resultam da edição de 2026. A ZERO aproveita para alertar novamente para o que considera fundamental fazer até 2030. Os três países devem iniciar desde já uma preparação assente em critérios rigorosos de sustentabilidade, privilegiando a mobilidade ferroviária e coletiva, a utilização de energia renovável, a gestão eficiente da água e dos resíduos e a definição de metas transparentes de redução de emissões. O sucesso do Mundial de 2030 não deverá medir-se apenas pela qualidade da organização ou pelos resultados desportivos, mas também pela sua capacidade de demonstrar que grandes eventos internacionais podem efetivamente minimizar os desafios ambientais, particularmente os climáticos, e da sustentabilidade em geral, como já aconteceu com alguns casos anteriores de edições dos Jogos Olímpicos nalgumas cidades.
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