Início » ZERO preocupada com agravamento da qualidade das águas balneares em 2026
Comparação através de relatórios oficiais dos meses de maio a julho mostra agravamento da qualidade das águas balneares entre 2025 e 2026 – restrições ao banho até final de julho sobem 65% e interdições mais do que duplicam na época balnear de 2026; dados até 30 de agosto revelam que 68 águas balneares em todo o país tiveram pelo menos uma vez água imprópria para banho, num total de 87 ocorrências.
A ZERO comparou os pontos de situação mensais relativos a maio, junho e julho das épocas balneares de 2025 e de 2026, divulgados pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e pela Direção-Geral da Saúde (DGS) para as águas balneares de Portugal continental.
Em Portugal continental, onde se identificaram 526 águas balneares em 2025 e 523 em 2026, registaram-se, entre maio e julho, 51 restrições ao banho em 2025 e 84 em 2026 — mais 33 restrições, um aumento de 65%. Os desaconselhamentos subiram de 34 para 45 (mais 32%) e as interdições, decretadas pelas autoridades de saúde, mais do que duplicaram, passando de 17 para 39 (mais 129%). Em ambos os anos, a contaminação microbiológica — por Escherichia coli e/ou Enterococos intestinais — foi a causa mais frequente: respondeu por 21 dos 34 desaconselhamentos e por 14 das 17 interdições em 2025, e por 33 dos 45 desaconselhamentos e por 34 das 39 interdições em 2026.
Restrições ao banho por mês, entre maio e julho — 2025 vs. 2026:
| Mês | Desaconselhamentos 2025 |
Desaconselhamentos 2026 |
Interdições 2025 |
Interdições 2026 |
Total 2025 |
Total 2026 |
| Maio | 3 | 1 | 0 | 3 | 3 | 4 |
| Junho | 13 | 20 | 2 | 5 | 15 | 25 |
| Julho | 18 | 24 | 15 | 31 | 33 | 55 |
| Total | 34 | 45 | 17 | 39 | 51 | 84 |
Causas das restrições ao banho, entre maio e julho:
| Causa | Desaconselhamentos 2025 |
Desaconselhamentos 2026 |
Interdições 2025 |
Interdições 2026 |
| Contaminação microbiológica | 21 | 33 | 14 | 34 |
| Precaução / outras causas | 13 | 12 | 2 | 5 |
| Salmonela | 0 | 0 | 1 | 0 |
| Total | 34 | 45 | 17 | 39 |
| 2025 | 2026 | |
| Sem restrições | 499 (94,9%) | 481 (92,0%) |
| Desaconselhadas | 13 (2,5%) | 20 (3,8%) |
| Interditadas | 9 (1,7%) | 18 (3,4%) |
O agravamento mais expressivo verifica-se ao nível das interdições — a restrição mais gravosa, decretada pelas autoridades de saúde quando se confirma um risco para a saúde pública. O número de interdições por contaminação microbiológica passou de 14 para 34, um aumento de 143%, concentrado sobretudo em julho, quando se registaram 30 interdições deste tipo — mais do que o dobro do total de interdições microbiológicas no mesmo período em 2025 (14). Em 2026, 34 das 39 interdições (87%) tiveram origem em contaminação microbiológica, uma proporção superior à de 2025 (14 em 17, 82%).
A ZERO efetuou também uma análise alargada a toda a época balnear em curso, recorrendo aos dados disponíveis no Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH) até ao passado fim-de-semana de 29 e 30 de agosto, e não apenas ao período de maio a julho tendo em conta os relatórios da Agência Portuguesa do Ambiente e Direção-Geral de Saúde. Esta análise foi limitada porque a totalidade dos dados das águas balneares da Região Autónoma dos Açores não estão disponíveis para análise e os dados das últimas semanas relativos à Região Autónoma da Madeira também não estão presentes.
Os dados da APA mostram que, até ao momento, que 68 águas balneares em todo o país tiveram pelo menos uma vez água imprópria para banho, num total de 87 ocorrências. Duas praias merecem destaque pelo número de ocorrências: Unhais da Serra, água interior na Covilhã, com quatro ocorrências, e o Cabedelo, água de transição na Figueira da Foz, com três. Por município, é Matosinhos que regista o maior número de águas balneares afetadas (sete), todas costeiras: Agudela, Angeiras Sul, Cabo do Mundo, Marreco, Matosinhos, Memória e Quebrada, num total de nove ocorrências de água imprópria para banho.
Das 68 águas balneares que registaram pelo menos uma ocorrência de água imprópria para banho na presente época, 32 são interiores, 29 costeiras e 7 de transição. Esta distribuição é reveladora quando confrontada com o peso de cada tipologia no universo de águas balneares existentes: as águas interiores representam apenas cerca de 30% do total de águas balneares identificadas em Portugal continental em 2026 (159 em 523), mas correspondem a 47% das situações de água imprópria. Isto significa que existe uma sobrerrepresentação das águas interiores nas situações de água imprópria, evidenciando a maior vulnerabilidade destas massas de água à contaminação microbiológica, apesar de serem largamente minoritárias face às costeiras e de transição, que em conjunto somam os restantes 70% do universo balnear nacional.
| Água Balnear | Código | Concelho | Categoria | Nº de vezes que as águas balneares foram consideradas como impróprias para banho |
| UNHAIS DA SERRA | PTCT7F | Covilhã | Interior | 4 |
| CABEDELO (FIGUEIRA DA FOZ) | PTCH2T | Figueira da Foz | Transição | 3 |
| MERELIM S. PAIO | PTCT3U | Braga | Interior | 2 |
| PONTE DO BICO | PTCK9H | Braga | Interior | 2 |
| VILA PRAIA DE ÂNCORA | PTCQ8J | Caminha | Costeira | 2 |
| PALHEIROS E ZORRO | PTCN8M | Coimbra | Interior | 2 |
| FRENTE AZUL | PTCQ2N | Espinho | Costeira | 2 |
| SECA | PTCJ9N | Espinho | Costeira | 2 |
| CASTELO NOVO | PTCL2N | Fundão | Interior | 2 |
| COVA REDONDA | PTCE7M | Lagoa | Costeira | 2 |
| ANGEIRAS SUL | PTCL3H | Matosinhos | Costeira | 2 |
| MATOSINHOS | PTCU2C | Matosinhos | Costeira | 2 |
| AVÔ | PTCP9T | Oliveira do Hospital | Interior | 2 |
| S. GIÃO | PTCF7V | Oliveira do Hospital | Interior | 2 |
| S. SEBASTIÃO DA FEIRA | PTCL7X | Oliveira do Hospital | Interior | 2 |
| ÍNSUA-VALE DAS ÉGUAS | PTCE7D | Sabugal | Interior | 2 |
Esta disparidade explica-se, em larga medida, pelas características físicas de cada tipo de água balnear. Rios, ribeiras e albufeiras têm, em geral, menor caudal e capacidade de diluição do que o litoral, estão mais expostos a descargas de origem agropecuária e aos efeitos de deficiências no saneamento, e aquecem com maior facilidade no verão, condições que favorecem a proliferação bacteriana, em particular após episódios de precipitação intensa que arrastam poluentes para o leito dos cursos de água. As águas de transição, nos estuários e rias, enfrentam uma vulnerabilidade semelhante, resultante da conjugação das cargas poluentes fluviais com a dinâmica das marés. Já as águas balneares costeiras, que constituem a larga maioria do universo balnear nacional, beneficiam da forte diluição, da agitação marítima e da renovação constante pela maré — fatores que aceleram a depuração natural e ajudam a explicar por que o litoral, apesar de concentrar a esmagadora maioria das águas balneares do país, regista uma incidência proporcionalmente mais baixa de água imprópria para banho.
A ZERO manifesta a sua preocupação com a incapacidade, ano após ano, de reduzir as ocorrências de água imprópria para banho — a comparação efetuada até agora entre os anos de 2025 e 2026 mostra precisamente o oposto, com um agravamento acentuado tanto nos desaconselhamentos como, sobretudo, nas interdições por contaminação microbiológica. Entre deficiências na rede de saneamento, descargas agropecuárias e industriais e poluição difusa, as causas destas ocorrências não estão a ser devidamente identificadas nem corrigidas. Para além de medidas de prevenção, é necessária uma ação inspetiva forte e sistemática, com identificação clara de responsabilidades.
A ZERO reitera também uma preocupação já manifestada em comunicados anteriores: a legislação e a comunicação pública relativas aos desaconselhamentos e às interdições de banho continuam a exigir maior coordenação e clarificação. Persistem critérios pouco coerentes entre a Agência Portuguesa do Ambiente, responsável pelos desaconselhamentos, e as Autoridades de Saúde, que decretam as interdições, dado que há praias em que, perante episódios de contaminação semelhantes, o banho é apenas desaconselhado, e outras em que se avança de imediato para a interdição. Esta falta de uniformidade gera situações confusas para a população.
Da lista das 73 Praias ZERO Poluição — distinção atribuída pela ZERO às águas balneares sem qualquer registo de contaminação microbiológica ao longo das três épocas balneares anteriores (2023, 2024 e 2025), divulgada em maio de 2026 — duas registaram, ainda assim, água imprópria para banho na presente época balnear: Arda, em Viana do Castelo, e Agudela, em Matosinhos, sabendo-se assim de antemão que não poderão manter o estatuto em 2027.
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