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ZERO avalia o mais importante pacote legislativo na área das alterações climáticas no contexto do Pacto Ecológico Europeu.

A ciência tem falado alto e a bom som: precisamos de uma ação climática sem precedentes até 2030, a fim de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C até ao final deste século. Apesar dos sinais de alarme lançados por milhares de cientistas, e de milhões de jovens e cidadãos em marcha pela mudança, o objetivo climático recentemente “reforçado” da União Europeia (UE) de “pelo menos 55% de redução líquida das emissões até 2030” ainda está longe de cumprir o compromisso mundial ao abrigo do Acordo de Paris de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C.

Mesmo com os novos compromissos climáticos em cima da mesa, incluindo o objetivo climático mais ambicioso da UE, o mundo continua a caminhar para um aumento global da temperatura de pelo menos 2,5°C até ao final deste século. Esta falta de ação adequada será onerosa, afetando as nossas vidas, meios de subsistência, direitos fundamentais e a economia. Um dos maiores grupos seguradores do mundo, Swiss RE, estima que um aumento da temperatura de 2,5°C causará uma perda de 8,0% do PIB na Europa até 2050. A inação climática terá grandes impactos, sobretudo sobre os grupos mais vulneráveis nos países com rendimentos mais baixos. Embora um aumento da temperatura de 1,5°C ainda represente riscos para a erradicação da pobreza e desigualdades, limitá-la a esse nível manterá o desenvolvimento sustentável da UE ao seu alcance.

A velocidade e a dimensão dos desafios climáticos e ambientais que enfrentamos a nível mundial é tal que não podemos dar-nos ao luxo de perder tempo e a próxima década será crítica para nos colocar no caminho certo. O montante sem precedentes de fundos disponibilizados pelo Quadro Financeiro Plurianual para 2021-2027 e o Plano de Recuperação da UE (Next Generation EU Recovery Plan) proporcionam uma oportunidade única para pôr em prática mais instrumentos políticos, económicos e fiscais ambiciosos e orientar os investimentos e as reformas na próxima década. Sobre o mecanismo de ajuste de carbono nas fronteiras (CBAM em Inglês), o objetivo é a contabilização e ajuste/taxação das emissões de CO2 associadas às importações de produtos para a UE, de forma a procurar evitar a perda de competitividade das empresas europeias face a empresas externas, devido à ambição europeia de neutralidade carbónica, e risco de deslocalização para países com condições mais permissivas. Por outro lado, o mecanismo de ajuste de carbono na fronteira terá um sério impacto nas indústrias que não pertencem à UE. Deste modo, será também necessário identificar estratégias para minimizar estes impactos e evitar que as negociações e os parceiros comerciais da UE não sejam afetados de forma desproporcional.

É por isso que a UE necessita de uma legislação climática e energética ambiciosa. O objetivo do pacote “Preparados para os 55” hoje apresentado pela Comissão Europeia inclui a revisão da principal legislação climática e energética da UE, pelo que reflete o objetivo de pelo menos 55% de redução líquida das emissões no final da década. No entanto, este nível de ambição da UE não é suficiente para representar a sua justa contribuição para alcançar o objetivo de 1,5°C do Acordo de Paris. Enquanto economia rica e grande emissor histórico, a UE deveria alcançar reduções de emissões de pelo menos 65% até 2030. Só estas reduções substanciais nos manterão em conformidade com o Acordo de Paris.

Todas as propostas políticas que constam do pacote legislativo da Comissão deveriam, portanto, refletir o mais alto nível de ambição e integridade, permitindo que o pacote global ultrapasse a meta insuficiente de 55% e prepare o caminho para que a UE antecipe a neutralidade climática para 2040 para estarmos em linha com o Acordo de Paris. Para o conseguir, os seguintes objetivos energéticos e climáticos para 2030 devem alinhar-se com o objetivo do Acordo de Paris:

  • Reduções das emissões de gases com efeito de estufa de pelo menos 50% nos sectores não incluídos no Comércio Europeu de Licenças de Emissões (CELE) (transportes rodoviários, edifícios, agricultura e resíduos) e de pelo menos 70% nos sectores do CELE (ambos em comparação com as emissões em 2005);
  • Mais do dobro das remoções líquidas dos sectores da utilização do solo e da silvicultura (em comparação com as remoções em 1990);
  • Pelo menos 45% de eficiência energética (redução do consumo de energia em comparação com previsto em 2030);
  • Uma percentagem de energias renováveis no consumo final de energia de pelo menos 50%.

 

 

Num contexto de desenvolvimento sustentável, tal implicará nomeadamente:

  • A eliminação faseada do carvão em toda a UE até 2030;
  • A eliminação faseada do gás em toda a UE até 2035;
  • A eliminação progressiva dos produtos petrolíferos em toda a UE até 2040;
  • O encerramento da maioria das centrais nucleares até 2040;
  • A eliminação progressiva a nível da UE da venda de automóveis a combustão interna, o mais tardar, até 2035.

 

Pacote injusto e impreparado para os 55

A ZERO reconhece que o pacote climático e energético representa um enorme trabalho de tentativa de enfrentar as perigosas alterações climáticas. No entanto, é necessário aumentar o nível geral de ambição para que a UE cumpra o seu compromisso ao abrigo do Acordo de Paris de limitar o aumento da temperatura global a 1,5 °C.

A ZERO saúda a proposta da Comissão de manter as metas nacionais de redução de emissões no Regulamento de Partilha de Esforços (ESR) que trata das emissões dos transportes rodoviários, edifícios, agricultura e resíduos, mas lamenta a ausência de metas semelhantes na legislação energética proposta. É crucial que os governos nacionais assumam a responsabilidade pela ação climática e garantam que a transição massiva que estamos enfrentando seja socialmente justa e ambientalmente correta.

Não agir de forma adequada em relação às alterações climáticas, em particular, ameaça os mais vulneráveis ​​na Europa e no estrangeiro. No entanto, devemos também garantir que a ação climática apoie a justiça social. É fundamento o apoio às medidas que têm em conta os impactos sociais, garantindo ao mesmo tempo que não existe mais apoio para que a indústria escape da aplicação do princípio do poluidor-pagador.

A ZERO quer ter certeza de que a transição justa é efetivamente justa. Isso inclui garantir que todas as receitas sejam direcionadas para apoiar a ação climática, com especial atenção para aqueles que mais sofrerão as consequências, tanto na UE como nos países em desenvolvimento. As políticas precisam levar em conta considerações sociais, e não apenas ser orientadas por uma lógica de mercado, principalmente quando as indústrias continuam sendo subsidiadas por meio da continuação de licenças gratuitas de poluição. O anúncio da criação do Fundo Climático Social procura integrar estas preocupações mas requer uma maior avaliação dos detalhes para se perceber se a resposta será a adequada.

Porém, para a ZERO, o pacote hoje apresentado leva-nos a considerar que a Comissão Europeia está a perder uma oportunidade histórica para eliminar os combustíveis fósseis do pacote “Preparados para os 55”, deixando a porta aberta para que o carvão, gás e petróleo permaneçam no sistema energético da UE por pelo menos mais duas décadas, enviando a fatura dos “poluidores pagadores” aos cidadãos da UE.

Considerando que este é o dossier mais relevante da política ambiental da UE este ano, não só falha em apresentar roteiros para a neutralidade climática e metas específicas para cada setor, mas também continua a proteger a indústria da UE de pagar o custo total da poluição.

A introdução de um esquema de Comércio de Emissões para edifícios e transportes, ao mesmo tempo em que mantém licenças gratuitas de CO2 para a indústria e usa fundos públicos para financiar combustíveis fósseis na Europa, irá de facto transferir o custo da poluição dos poluidores reais para o consumidor final.

Setores que geram as maiores emissões e poluição, como a indústria pesada e a agricultura, ainda estão excluídos do esforço necessário para contribuir com a neutralidade climática.

As metas para energia renovável e eficiência energética estão muito abaixo do nível de ambição necessário para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C e não são obrigatórias a nível nacional. Tal atrasará a transição energética nos Estados-Membros, uma vez que o atual quadro de governança climática e energética da UE se tem mostrado insuficiente para preencher esta lacuna.

O Tribunal de Contas Europeu revelou recentemente uma tendência preocupante, segundo a qual o dinheiro público é frequentemente gasto para cobrir custos que os poluidores deveriam pagar. Os esforços de descarbonização da indústria perderam uma década devido aos baixos preços do carbono e licenças gratuitas, que ajudaram alguns setores industriais a lucrar até 50 mil milhões de euros entre 2008-2019.

Enquanto algumas propostas do pacote “Preparados para os 55” são positivas, como a inclusão de emissões marítimas no Comércio Europeu de Licenças de Emissão ou a exclusão de projetos de combustíveis fósseis do âmbito do Fundo de Modernização, outras, na sua maioria, pedem a todos os cidadãos que paguem novamente para manter viva a indústria de combustíveis fósseis, além dos subsídios já fornecidos.

Especificamente na área dos transportes, o pacote traduzir-se-á na venda de automóveis 100% livres de emissões em 2035 e democratizará os veículos elétricos na Europa. Os automóveis são responsáveis por 12% de todas as emissões de gases com efeito de estufa na Europa e a mudança nas vendas de motores poluentes para totalmente elétricos é um passo crucial para atingir as emissões líquidas zero até meados do século. Um novo mercado de carbono para combustíveis rodoviários poderá, se aprovado, aumentar os preços em cerca de 5 centavos o litro até 2028. A estratégia hoje publicada também vai acabar com a isenção de impostos para o combustível de aviação, substituí-lo ao longo do tempo por alternativas verdes e acelerar a implementação de infraestruturas de carregamento elétrico para veículos pesados. Em nítido contraste, a forte promoção da UE do uso de gás, um combustível fóssil, no transporte marítimo, causará décadas de emissões.

A ZERO considera que os Estados-Membros e o Parlamento Europeu devem exigir um aumento da ambição e da coerência das políticas do pacote legislativo “Preparados para os 55”. A ciência exige-o e os cidadãos em toda a Europa também exigem ações muito mais ousadas para combater as alterações climáticas.

Os Estados-Membros devem lembrar-se que são os primeiros responsáveis por traduzir estes objetivos em ações e por serem responsáveis pela sua concretização. No entanto, são também os primeiros a colher todos os benefícios de uma transformação limpa e justa. Os países europeus têm um enorme potencial para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, aumentar as energias renováveis e aumentar a poupança de energia. Além disso, com o orçamento renovado da UE e o Programa de Recuperação e Resiliência, os Estados-Membros têm uma oportunidade única, e uma janela aberta apenas este ano, para assegurar o financiamento de um processo de investimento sustentável e inclusivo que promova uma transformação justa.

O impulso para a mudança está a crescer. A prossecução de políticas compatíveis com 1,5°C é viável, e o cumprimento de objetivos climáticos e energéticos muito mais elevados é mais do que exequível.

Os principais desafios são reduzir o nosso consumo de energia através da integração da eficiência energética com a fixação de preços do carbono e o estabelecimento de datas de eliminação progressiva para os combustíveis fósseis em toda a UE, intensificando o princípio da utilização de energias renováveis sustentáveis e a valorização da circularidade, em conformidade com a ambição climática, orientando as finanças públicas e privadas para a realização dos objetivos do Pacto Ecológico Europeu, assegurando simultaneamente sinergias com outros países da União Europeia, e com os objetivos ambientais, sociais e de igualdade de género. Ciência e cidadãos em toda a Europa estão a pedir ações muito mais arrojadas para combater as alterações climáticas. Esperamos que os Estados Membros e o Parlamento Europeu aumentem a ambição e a coerência política do pacote legislativo. A Europa pode e deve fazer mais.

Precisamos de tornar este pacote legislativo sobre o clima e a energia “preparado para 1,5°C”, a fim de enfrentar a crise climática com a urgência comprovada pela ciência e liderar um movimento global para a implementação de políticas compatíveis com o Acordo de Paris. Tal permitirá à UE trazer a bordo outros grandes emissores, tais como os EUA e a China, bem como muitos países em desenvolvimento e economias emergentes em todo o mundo. Chegou a hora dos decisores da UE intensificarem o seu papel na proteção dos europeus, dos nossos meios de subsistência e da economia. Temos de agir agora!

Notas:

  • A Comissão Europeia apresentou hoje um pacote de propostas legislativas que visam atingir o objetivo da UE de, pelo menos, 55% de redução das emissões até ao final de 2030 e colocá-la no caminho para alcançar a neutralidade climática até 2050.
  • Este pacote irá agora dar início a uma série de procedimentos legislativos que irão para os colegisladores da UE, o Parlamento Europeu e o Conselho da UE, que terão então de chegar a um acordo conjunto a fim de adotar legislação nova ou revista. Uma vez que o prazo de implementação dessas revisões é 2030, há pressão sobre as instituições da UE para iniciarem um processo de negociação rápido para entrarem em vigor o mais rápido possível.
  • Espera-se que algumas leis adicionais nas áreas da energia e clima sejam revistas nos próximos meses: Revisão da Diretiva de Desempenho Energético de Edifícios (EPBD); Revisão do Terceiro Pacote Energético para Gás (Diretiva 2009/73/UE e Regulamento 715/2009/UE) que regulam os mercados competitivos de gás descarbonizado, previsto para dezembro de 2021.

A ZERO associa-se às posições hoje manifestadas pelas seguintes organizações: Rede Europeia de Ação Climática (CAN-Europe), Federação Europeia de Associações de Ambiente (European Environmental Bureau – EEB) e Federação Europeia de Transportes e Ambiente (Transport & Environment – T&E),