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Dia 16 de janeiro será finalmente divulgada a Estratégia da União Europeia para lidar com o problema dos plásticos, que são hoje um dos grandes desafios ambientais que o mundo enfrenta.

Não obstante a sua relevância para a sociedade, os plásticos representam hoje um enorme problema ambiental, desde as localizações mais remotas, até ao jardim ou à praia que frequentamos. Tal fica a dever-se a duas razões fundamentais:

  • À proliferação do seu uso em utilizações de uso único, com a cultura de usar e deitar fora e do descartável
  • À ineficácia das políticas de reciclagem, muito ligada ao facto de muitos dos plásticos produzidos não serem devidamente encaminhados para reciclagem e de, em muitos casos, mesmo quando o são, a sua reciclagem ser muito difícil e com baixo interesse económico.

Neste contexto, os plásticos tornaram-se omnipresentes na nossa vida e no ambiente. De uma produção de 15 milhões de toneladas em 1964, passámos para 311 milhões de toneladas em 2014 (um aumento de 20 vezes), havendo a estimativa que este valor duplicará nos próximos 20 anos (1).

Considerando que, desta imensidão de plástico produzido ao longo de cerca de seis décadas, apenas cerca de 9% foi encaminhado para reciclagem, não é de estranhar que represente hoje um enorme problema que ameaça não só o ambiente, mas também a nossa saúde (2).

Para além do impacto nos oceanos (estima-se que neles existam 150 milhões de toneladas de plásticos neste momento, e todos os anos sejam adicionadas entre 4 a 12 milhões de toneladas, 80% das quais resultam de atividades em terra) (3), na vida marinha e na cadeia alimentar de todas as espécies (incluindo na nossa, com a deteção de plásticos em muitos dos produtos alimentares provenientes do mar), atualmente cerca de 6% da produção de petróleo é utilizada por este setor, sendo um contribuinte direto para as alterações climáticas (cerca de 1% do global anual de carbono emitido), equivalente ao setor da aviação (4).

Os custos sociais, económicos e ambientais do uso dos plásticos, considerando também o seu contributo para as alterações climáticas, são superiores aos lucros anuais da indústria das embalagens de plástico.

Portugueses e Europeus apoiam e querem mais ação nesta matéria

Os dados do Eurobarómetro são claros (novembro de 2017):

  • 87% dos europeus estão preocupados com o impacto do plástico no ambiente (91% em Portugal) e três em cada quatro (74%) estão preocupados com os impactos que este material pode ter na sua saúde (77% em Portugal).
  • Existe ainda um elevado grau de concordância (sempre acima dos 85%) com temas como “os produtos devem ser desenhados para serem recicláveis (99% em Portugal), a indústria e os retalhistas devem reduzir as embalagens de plástico (98% em Portugal), as pessoas devem ser educadas sobre como reduzir a produção de resíduos de plástico (98% em Portugal) ou que as autoridades locais devem facilitar a recolha dos resíduos de plástico (98% em Portugal)”. Para além disto, mais de 60% consideram importante que “os consumidores paguem uma taxa extra sempre que usem produtos descartáveis” (55% em Portugal) (5).

Estes dados indicam que a União Europeia terá os cidadãos do seu lado, se tiver a coragem de tomar medidas concretas e eficazes para reduzir o uso de plástico, em particular as suas utilizações descartáveis.

As expectativas da ZERO em relação à estratégia Europeia

Perante este problema grave, a ZERO espera que a futura Estratégia Europeia sobre Plásticos integre as seguintes orientações:

  • Medidas que trabalhem a redução da procura para que haja uma clara redução da oferta. Para além de penalizar as utilizações de embalagens ou produtos descartáveis, é fundamental fomentar a utilização de soluções duráveis, que permitam a reutilização e a reparação.
  • Tem que se promover a obrigatoriedade de integrar materiais reciclados nos produtos, no sentido de completar o ciclo virtuoso da Economia Circular.
  • Trabalhar a questão da reciclabilidade real dos produtos no fim do ciclo, isto é, não basta dizer que é reciclável, é fundamental garantir que no âmbito da Economia Circular aquele material poderá voltar a ser integrado na Economia e continuará a ter um valor no ciclo (para grande parte das soluções descartáveis isto não acontece). Ainda a este nível, é fundamental garantir que não são incluídas substâncias tóxicas nos produtos de plástico, que possam depois dificultar, ou mesmo impedir, a sua reciclagem; prevenir a perigosidade dos materiais é central para promover a Economia Circular.

 

  • Desincentivar a cultura do uso descartável, qualquer que seja o material. A solução não está em substituir o plástico por outros materiais e manter os mesmos hábitos de produção e consumo de utilização única, mas antes, alterar o paradigma e estimular o uso de materiais duráveis e reutilizáveis.

Benefícios Económicos, Sociais e Ambientais

Vários estudos demonstram que apostar na qualidade, na resiliência e em ciclos de vida prolongados dos materiais e dos produtos permite criar emprego ao mesmo tempo que se reduzem os impactes e custos ambientais e na saúde (humana e dos ecossistemas).

Considerando que em 2017 a Humanidade consumiu os recursos disponíveis para o ano inteiro até 2 de Agosto (em Portugal foi a 5 de junho, tendo em consideração a nossa pegada ecológica), é urgente agir com eficácia para reduzir a quantidade de plástico no nosso dia-a-dia. Para tal é necessário promover um novo paradigma de produção e consumo, assente na suficiência, na qualidade e na durabilidade, de forma a que todos possamos viver com qualidade de vida dentro dos limites do planeta.

Notas bibliográficas

(1) World Economic Forum, Ellen MacArthur Foundation and McKinsey & Company, The New Plastics Economy — Rethinking the future of plastics, 2016, https://www.ellenmacarthurfoundation.org/publications

(2) Geyer, R., Jambeck, J. and Lavender, K. 2017. Production, use, and fate of all plastics ever made. Science Advances 3:7. [DOI: 10.1126/sciadv.1700782].

(3) Ver nota (1)

(4) Ver nota (1)

(5) Eurobarómetro 468 – Attitudes of European Citizens Towards the Environment – https://ec.europa.eu/commfrontoffice/publicopinion/index.cfm/Survey/getSurveyDetail/instruments/SPECIAL/surveyKy/2156