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Alterações climáticas – apresentação dos resultados do Índice de Desempenho das Alterações Climáticas, CCPI 2021.

Numa nova seriação de 57 países (e a UE em bloco) com as maiores emissões, estas são as principais conclusões:

  • Nenhum dos países incluídos está num caminho compatível com os objetivos do Acordo de Paris;
  • Emissões estão a diminuir em mais de metade dos países analisados;
  • Sete países da União Europeia (UE) e a União Europeia como um todo recebem uma classificação “alta” para proteção climática, mas cinco países da UE estão na categoria “muito baixa”;
  • Portugal e Nova Zelândia estão entre os países que melhoram mais o desempenho; Suécia lidera;
  • Pela segunda vez consecutiva, EUA estão na parte inferior da seriação, abaixo da Arábia Saudita.

O Índice de Desempenho em Mudanças Climáticas 2021 (Climate Change Performance Index (CCPI)) hoje publicado, apresenta um quadro misto do progresso da União Europeia (UE) na ação climática. Enquanto os países escandinavos da UE, Portugal e a UE como um todo destacam-se no índice com indicadores relativamente bons, Hungria, Polónia e República Checa destacam-se fortemente pela negativa no progresso climático dentro do bloco.

Na classificação geral, a UE melhorou do 22º lugar no ano passado para 16º este ano, quase exclusivamente graças a uma muito melhor política climática.

O Índice de Desempenho das Alterações Climáticas é um instrumento destinado a aumentar a transparência do desempenho e das políticas climáticas internacionais. O CCPI analisa e compara a proteção do clima em 57 países (mais a União Europeia como um todo) com as emissões mais elevadas, que juntas respondem por 90 por cento das emissões globais. O índice atual analisa as emissões antes da crise do coronavírus e não reflete a redução de emissões durante essa situação incomum.

O CCPI é da responsabilidade da organização não-governamental de ambiente alemã Germanwatch e do NewClimate Institute, publicado em cooperação com a Rede Internacional de Ação Climática de que a ZERO faz parte. O objetivo do índice é colocar pressão política e social sobre os países que, até agora, não conseguiram tomar medidas ambiciosas para a proteção climática. O índice CCPI pretende também destacar os países com melhores práticas climáticas.

O índice deste ano é liderado uma vez mais pela Suécia (4º), seguida pelo Reino Unido (5º) e pela Dinamarca (6º). Portugal ficou classificado em 17º lugar. Porém, considerando que os três primeiros lugares ficaram vazios por se considerar não haver, por agora, nenhum país merecedor do pódio no que respeita à proteção do clima, a classificação remete efetivamente para um 14º lugar, posição ocupada há dois anos atrás. O ano passado, muito devido ao impacte dos dados de 2017 associados às emissões da produção de eletricidade em centrais térmicas devido à seca e aos incêndios, Portugal estava classificado em 25º lugar (na prática, 22º), subindo assim este ano oito posições, voltando a fazer parte do grupo de países com classificação “alta”, a mais elevada atribuída, já que nenhum país consegue atingir a classificação “mais alta”.

O índice CCPI tem por base o conjunto mais recente de estatísticas fornecidas pela Agência Internacional de Energia relativas ao ano de 2018 (o último disponível) e uma avaliação por peritos do desempenho atual no que respeita às políticas climáticas, à escala nacional e internacional.

Análise dos resultados para Portugal

Classificado no 17º lugar (na prática 14º lugar) no CCPI deste ano, Portugal sobe oito lugares e regressa ao grupo de países considerados com alto desempenho. Portugal conseguiu melhorar significativamente a sua classificação de muito baixo para médio na categoria de emissões de gases de efeito de estufa. Com a classificação de emissões do ano passado fortemente impactada por grandes incêndios florestais e secas em 2017, a do ano de 2018 mostra uma forte melhoria. No entanto, as emissões per capita (excluindo florestas e uso do solo), assim como o uso de energia per capita, ainda estão a aumentar, enquanto a parcela de energia renovável no uso de energia tem vindo a aumentar menos, o que levou a classificações baixas e muito baixas nos respetivos indicadores de tendência (2013-2018).

Francisco Ferreira, Presidente da ZERO refere que “A Lei do Clima, incluindo uma proposta para acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis, bem como uma meta de redução de emissões em pelo menos 55% para 2030 em relação a 2005, que vai entrar em discussão e deverá ser votada durante 2021, vai ser um instrumento decisivo de ação climática para Portugal”.

Os especialistas nacionais que participaram no relatório apontam também para medidas fiscais verdes bem-sucedidas nas áreas de energias renováveis ​​e transportes, às políticas de eficiência energética no setor da indústria e à nova legislação no setor florestal. No entanto, há espaço para melhorias em eficiência energética e implementação de energia solar descentralizada, especialmente no setor residencial. A nível internacional, Portugal tem uma pontuação muito elevada nas avaliações dos especialistas, o que classifica o país na linha da frente nas negociações internacionais, graças ao seu compromisso com a neutralidade de carbono até 2050.

Portugal, comparativamente com a Espanha, está 24 lugares acima no índice, e um lugar abaixo da União Europeia (como um todo).

Países em destaque no índice

Este relatório é publicado poucos dias antes da Cimeira da UE sobre as metas climáticas para 2030 e da Cimeira das Nações Unidas sobre a Ambição do Clima para marcar o Quinto Aniversário do Acordo de Paris em 12 de dezembro.

Jan Burck da Germanwatch menciona que “A UE pode tornar-se um modelo na proteção do clima com medidas de recuperação verde após a crise do coronavírus, definindo uma meta climática ambiciosa para 2030 em linha com o limite de 1,5 °C e uma boa implementação e desenvolvimento do Pacto Ecológico Europeu. Porém, também pode tropeçar, se em vez de uma recuperação verde, implementar metas e instrumentos inadequados”.

Apenas três membros do G20 lideram na classificação, com seis nas últimas posições

O G20 apresenta uma imagem dividida. O Reino Unido (5º), a Índia (10º) e a UE(13º) pontuam alto no índice. A grande maioria dos países do G20, no entanto, está atrás na seriação. Os EUA (61º), Arábia Saudita (60º), Canadá(58º), Austrália (54º), Coreia do Sul (53º) e Rússia (52º) são classificados como “muito baixo”.

Embora pareça estar próximo um ponto de inflexão nas emissões globais, cinco anos após o Acordo de Paris nenhum país está num caminho compatível com os objetivos do Acordo. No geral, as emissões de gases de efeito estufa aumentaram ligeiramente, mas na verdade estão a cair em mais da metade dos países (32) analisados. Em dois terços dos países (38), mais de dez por cento do total da energia primária necessária agora vem de fontes renováveis, ​​e em doze países as energias renováveis ​​representam mais de 20 por cento.

Espanha, Bélgica e Grécia diminuem no desempenho climático

A Suécia (4º lugar, categoria “alta”) permanece como pioneira internacional em proteção climática pelo quarto ano consecutivo. No entanto, a Suécia também não é um “modelo climático”. Como todos os outros países, até agora, ainda não está no caminho de atingir as metas do Acordo de Paris (razão pela qual os três primeiros lugares do CCPI permanecem vagos). O elevado consumo de energia per capita (49º lugar) impede o país de ter uma avaliação ainda melhor. Na classificação geral, o Reino Unido (5º) e a Dinamarca (6º), Portugal (de 25º para 17º lugar) e a Nova Zelândia (de 37º para 28º) estão entre os países com maiores subidas. O Japão também subiu seis lugares (de 51 para 45), mas ainda recebe a classificação “baixa” (no ano passado: “muito baixo”). Por outro lado, Eslovénia (de 44ª para 51ª), Espanha (de 34ª para 41ª), Bélgica (de 35ª para 40ª) e Grécia (de 28ª para 34ª) apresentaram as maiores quedas.

Marrocos, Chile e Índia: três países em desenvolvimento entre os dez primeiros

Três países em desenvolvimento também estão entre os dez primeiros do ranking: Marrocos (7º), Chile (9º) e Índia (10º).  Os maiores países exportadores e produtores de combustíveis fósseis, representando menos de 10% da população global — os Estados Unidos, a Rússia, a Arábia Saudita e a Austrália — estão justamente no final da tabela. Estes países estão entre os maiores poluidores e os maiores consumidores de energia. Nenhum deles tem qualquer política climática útil em vigor para reduzir a poluição de carbono, o que demonstra o poder de influência das indústrias de combustíveis fósseis nesses países. Por outro lado, vemos muitas nações menores, como Portugal, Marrocos, Chile e outros na Europa, que têm um desempenho muito melhor. Para combater a crise climática de forma eficaz, precisamos de desmontar o modelo de negócios das empresas de combustíveis fósseis em todo o mundo.

EUA, Arábia Saudita e Irão: os piores desempenhos

Mais uma vez, o desempenho dos EUA é desastroso: no último ano da Administração do presidente Trump, é a segunda vez consecutiva que os EUA ficam em último lugar, abaixo da Arábia Saudita. Em todas as quatro categorias, exceto energia renovável (“baixo”), os EUA terminam na parte inferior da tabela (“muito baixo”) e são o único país, além da Austrália e da Argélia, a receber a pior avaliação de “muito baixo” em termos de política climática nacional e internacional. Os planos do presidente eleito Joe Biden apresentam fortes oportunidades para que essa avaliação melhore significativamente, mas apenas se as promessas da campanha eleitoral forem realmente cumpridas . Dada a maioria ainda incerta no Senado não se sabe quando e se tal será implementado.

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Sobre o Índice de Desempenho em Mudanças Climáticas:

O Climate Change Performance Index é da responsabilidade da organização não-governamental de ambiente alemã Germanwatch e do NewClimate Institute publicado em cooperação com a Rede Internacional de Ação Climática (CAN International) de que a ZERO faz parte. O índice faz parte uma seriação dos 57 países e da UE, responsáveis ​​coletivamente por cerca de 90% das emissões globais de gases de efeito de estufa (GEE). As quatro categorias avaliadas são: Emissões de GEE (40%), Energia Renovável (20%), Uso de Energia (20%) e Política Climática (20%). Este último é baseado em avaliações de especialistas por organizações não-governamentais e grupos de reflexão dos respetivos países. Dentro das categorias Emissões, Energia Renovável e Uso de Energia, o CCPI também avalia em que medidas estão a ser tomadas ou não para o objetivo global do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global bem abaixo de 2 °C. O CCPI é uma ferramenta importante para aumentar a transparência na política climática internacional e permite a comparação dos esforços de proteção do clima e do progresso feito por cada país. É publicado anualmente desde 2005.

O relatório do CCPI2021 está disponível em inglês, através dos links:

 

Versão completa: https://drive.google.com/file/d/1Wf75f_jR5dIeXk9XX-0QULugtwY4Pvu2/view?usp=sharing

 

Portugal: https://drive.google.com/file/d/1GPMjUCwjzjSCNj9gBoTggK37mkjLagF3/view?usp=sharing