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Uma investigação realizada pela Changing Markets Foundation e a coligação Break Free From Plastic da qual a Sciaena e a ZERO são membros, relativo a 15 países e cinco continentes, demonstra a discrepância que existe entre o discurso e os compromissos públicos de grandes supermercados e marcas da área alimentar e de bebidas e as suas manobras de bastidores, que visam boicotar qualquer legislação que procure fazer frente ao problema das embalagens descartáveis.

A poluição gerada pelos plásticos descartáveis​, que afeta gravemente a nossa saúde e o nosso ambiente, tem solução, mas é a indústria que produz, embala e distribui esses recipientes que está a fazer tudo o que pode, nos bastidores, para que nada seja feito para reduzir esta ameaça. Esta é a principal conclusão de uma investigação internacional realizada pela fundação holandesa Changing Markets e o movimento Break Free From Plastic em 15 países e cinco continentes e que foi apresentada hoje.

O relatório apresenta estudos de caso onde as iniciativas voluntárias não apenas falharam em conter a crise do plástico, como têm sido utilizadas pelas empresas como tática para atrasar e obstruir legislação progressista, isto ao mesmo tempo que procuram distrair os consumidores e governos com promessas vazias e falsas soluções.

O relatório “Talking Trash – manual sobre falsas soluções das empresas para a crise do plástico”, mostra como os dez maiores poluidores de plástico do mundo _Coca-Cola, Colgate-Palmolive, Danone, Mars Incorporated, Mondelēz International, Nestlé, PepsiCo, Perfetti Van Melle, Procter & Gamble e Unilever, com uma pegada plástica conjunta de quase 10 milhões de toneladas por ano, assumem compromissos públicos de reciclagem com objetivos quantificáveis, ​os quais não cumprem e reformulam ou então focam o discurso em soluções falsas ou soluções não comprovadas que também envolvem outros problemas ambientais (alternativas supostamente biodegradáveis ou compostáveis, reciclagem química, etc.).

Por exemplo, a Coca-Cola está comprometida, de alguma forma, com dez iniciativas voluntárias para resolver o problema dos resíduos de plástico, enquanto faz parte de, pelo menos, sete associações comerciais que têm feito lobby contra a implementação de sistemas de Depósito ou outra legislação para regulamentar o uso de plástico descartável.

A realidade é que, segundo o relatório, nos 40 países e regiões do mundo onde as embalagens de bebidas podem ser devolvidas à loja (através de sistemas de depósito com retorno, como o que irá ser implementado em Portugal a partir de janeiro de 2022), 90% de todas as embalagens de bebidas são reaproveitadas e / ou convertidas em novas embalagens, em vez de serem abandonadas, colocadas em aterro ou incineradas.

“O relatório mostra a hipocrisia das grandes empresas que, por um lado, afirmam estar comprometidas com soluções, mas, por outro, usam truques para continuarmos a viver na sociedade descartável. Temos de adotar políticas eficientes e comprometidas com o ambiente e com as gerações futuras, comentou Renata Fleck da Sciaena.

Para Susana Fonseca da ZERO “já não há tempo para as falsas soluções ou promessas. Ou apostamos de vez em soluções de redução e reutilização, ou arriscamo-nos a causar danos irreversíveis ao ambiente e à nossa saúde. Os governos através da regulamentação e os cidadãos através da ação devem mostrar às empresas que mais do mesmo já não serve!”.

O relatório detalha uma extensa lista de ações que os produtores de plásticos, marcas de alimentos e bebidas e grandes supermercados aplicam, de forma coordenada à escala global, para distrair, atrasar e inviabilizar qualquer legislação que tenha como objetivo acabar com a onda de poluição por plástico, que está a acontecer por todo o mundo, inclusive apropriam-se da crise do Covid-19 para os seus objetivos.

Propostas

Perante um cenário em que é esperado que a produção de embalagens plásticas duplique nos próximos 10-15 anos, o relatório propõe três grandes soluções:

  • Introduzir legislação que exija a recolha seletiva de, pelo menos, 90% dos resíduos plásticos e implemente sistemas de depósito com retorno obrigatórios, enquanto única forma comprovada e eficaz de atingir níveis significativos de reutilização e reciclagem de embalagens de bebidas.
  • Estabelecer objetivos de reutilização e outros mecanismos que promovam a reutilização e o reenchimento como opção prioritária.
  • Aplicar metas de conteúdo mínimo de material reciclado, pois isso estimulará a criação de um mercado para a reciclagem de qualidade e eficaz dos plásticos.

Sumário executivo em Português:

https://drive.google.com/file/d/1621QWn9L_MidqU_-ATQq85ksSElJ2736/view?usp=sharing

Relatório completo em Inglês:

https://talking-trash.com/wp-content/uploads/2020/09/TalkingTrash_FullReport.pdf