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Contributo local para a sustentabilidade do Planeta em projeto internacional inovador.

O Projeto Pegada Ecológica dos Municípios Portugueses resulta de uma parceria estratégica entre a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, a Global Footprint Network (GFN), a Universidade de Aveiro e seis municípios pioneiros que integram o projeto: Almada, Bragança, Castelo Branco, Guimarães, Lagoa e Vila Nova de Gaia. De acordo com o coordenador deste projeto, Paulo Magalhães da ZERO, o projeto tem três objetivos gerais: estimar a Pegada Ecológica e a biocapacidade dos municípios envolvidos (2018); debater com os cidadãos e partes interessadas dos municípios as implicações dos resultados e as opções de mitigação, com o auxílio de calculadoras online da Pegada Ecológica (2019); estudar e propor instrumentos e políticas que reforcem a coesão e equidade territorial com o objetivo de promover a gestão sustentável do território (2020).

Nos últimos anos, a Pegada Ecológica tem sido calculada para diversas cidades em todo o mundo, embora o cálculo da Biocapacidade nunca tenha sido trabalhado a esta escala territorial. Alessandro Galli, diretor do Programa do Mediterrâneo da GFN e coordenador científico deste projeto na GFN, salienta que esta iniciativa é, nesse sentido, inovadora, em termos nacionais e internacionais, pela forma como integra o cálculo da Pegada Ecológica com o cálculo da Biocapacidade ao nível municipal. O projeto pretende gerar um forte envolvimento da sociedade civil, sobretudo depois de conhecidos os resultados, e potenciar a promoção de novos instrumentos e políticas públicas que incentivem a redução dos impactes ambientais e o reforço dos serviços prestados pelos ecossistemas destes municípios. Para serem resilientes e bem-sucedidos, os municípios precisam de encontrar formas de atuar e de proporcionar uma vida próspera aos seus cidadãos, dentro dos limites do planeta, e para isso é necessário informação quantificada capaz de influenciar as tomadas de decisões.

A Pegada Ecológica é uma metodologia reconhecida internacionalmente e desenvolvida pela Global Footprint Network que permite medir o impacto das nossas atividades de consumo nos recursos naturais do planeta. A metodologia pode ser aplicada a várias escalas, desde um indivíduo, cidade, região, país, até ao planeta Terra, comparando os recursos naturais usados para suportar um determinado estilo de vida com a capacidade dos ecossistemas para gerar esses mesmos recursos. É uma importante ferramenta de alerta para as necessárias mudanças de comportamento de consumo das sociedades atuais e para um novo paradigma de efetiva valorização dos serviços prestados pelo ambiente ao Ser Humano, reforça Alessandro Galli.

Entre 26 a 30 de outubro de 2018, de cada um dos seis municípios foram divulgados os resultados da Pegada Ecológica e biocapacidade através de eventos públicos.

Pegada Ecológica e biocapacidade – Resultados dos municípios para o Total Nacional

Os resultados, apresentados em cada município por Sara Moreno Pires, Professora da Universidade de Aveiro, que coordena a parte científica do projeto em Portugal, demonstram que os municípios com maior população são também os que mais peso têm no total da Pegada Ecológica de Portugal: Vila Nova de Gaia, Almada e Guimarães. Já no que diz respeito à biocapacidade, os municípios de Castelo Branco e de Bragança são os que mais contribuem para o total da Biocapacidade portuguesa, com 0,9% e 0,7% respetivamente, o que de uma certa forma também reflete a maior dimensão destes territórios face aos restantes em análise. Este é um resultado que, como foi reforçado pelos respetivos Presidentes de Câmara, demonstra a necessidade de valorar e apoiar financeiramente a proteção e gestão desta mais-valia dos territórios para a sustentabilidade do país e do Planeta.

Pegada Ecológica e Biocapacidade per capita dos seis Municípios

Os resultados mostram que a Pegada Ecológica atinge, em 2016, um menor valor per capita no município de Lagoa com 3,25 hectares globais (gha) por pessoa, 17% abaixo da média de um cidadão nacional, i.e. em média cada residente de Lagoa precisou de 3.25 gha de área bioprodutiva para suportar o seu estilo de vida nesse ano. Almada obteve o maior valor per capita da PE com 4,08 gha, 4% mais elevada do que a média nacional de 3,96 gha.

Por sua vez, a biocapacidade per capita alcançou o valor menos elevado nos municípios  de Vila Nova de Gaia (0,17 gha por pessoa, 85% abaixo da média nacional) e Guimarães (0,19 gha). Os valores que se destacam como positivos, mais uma vez nos municípios de Bragança e Castelo Branco, mas desta vez com o seu contributo per capita, correspondem a 2,68 gha e 2,31 gha, respetivamente. A biocapacidade per capita de um português corresponde a 1.28 gha.

O saldo entre Pegada Ecológica e biocapacidade é sempre devedor em todos os municípios e demonstram assim os desafios locais para inverter lógicas de consumo prejudiciais ao ambiente. Estes resultados seguem um padrão semelhante a nível mundial, em que cerca de 130 países se encontram em défice ecológico, dos quais Portugal se inclui, de acordo com o relatório da WWF, Zoological Society of London e da Global Footprint Network publicado hoje       (https://wwf.panda.org/knowledge_hub/all_publications/living_planet_report_2018/).

A área para sequestro de carbono é a que mais se destaca em todos os municípios, com mais de 50% da componente da Pegada Ecológica, demonstrando a importância de se apostar em políticas de descarbonização da economia. A segunda componente de uso do solo mais importante é a área de cultivo (cerca de 22% a 24%).

Dia da Sobrecarga da Terra – O dia em que esgotamos o saldo natural para um ano

O Dia da Sobrecarga da Terra (Overshoot day) (2016) simboliza o dia do ano em esgotamos os recursos gerados nesse ano pela biocapacidade do Planeta. Se toda a população mundial consumisse ao mesmo nível que o consumo médio de cada residente de um dos municípios, o dia de Sobrecarga municipal seria atingido nos dias descritos na Tabela.

Se toda a população mundial tivesse em média o mesmo valor de cada uma destas Pegadas, o número de Planetas Terra que seriam necessários está também descrito na tabela.

  Dia da Sobrecarga Nº Planetas
Almada 27 Maio 2,4
Bragança 30 Maio 2,4
Castelo Branco 30 Maio 2,4
Guimarães 13 Junho 2,2
Lagoa 4 Julho 1,9
Vila Nova de Gaia 3 junho 2,3
Portugal 2 de junho 2,3

 

Quais as atividades de consumo que mais influenciam a elevada Pegada Ecológica dos municípios?

As 12 categorias associadas ao consumo das famílias representam a maior fatia, sendo  de forma agregada, a componente que mais influencia a Pegada Ecológica per capita. O consumo de produtos alimentares é a atividade de consumo que mais se destaca, sendo responsável pela maior componente da Pegada Ecológica, seguido do consumo no setor dos transportes. Entre os países do Mediterrâneo, um estudo da GFN demonstra que Portugal é o país com maior Pegada per capita da Alimentação (https://www.ciheam.org/publications/190/010_-_Galli.pdf, , https://www.publico.pt/2015/10/29/ecosfera/noticia/consumo-de-peixe-aumenta-pegada-ecologica-de-portugal-1712677). Este resultado fica também evidente no caso dos diferentes municípios, o que levou este estudo a querer aprofundar o peso da alimentação através da desagregação da informação em diferentes subcategorias de consumo: calculando a Pegada Ecológica da Alimentação (ver mais à frente).

No período de 2011 a 2016, a Pegada Ecológica dos municípios teve uma tendência descrescente de 2011 a 2014, ano em que voltou a subir os seus valores, refletindo a tendência de recuperação da crise económica a partir de 2014.

Pegada Ecológica da Alimentação

Responsável por esta elevada Pegada da alimentação está o consumo de carne (que varia entre 23% e 28% nos municípios) e de peixe e outro pescado (em torno de 26%). O consumo de proteína animal corresponde assim a mais de metade da Pegada da Alimentação.

Sendo Portugal o país Europeu que mais peixe consome, de acordo com este recente estudo (https://ec.europa.eu/jrc/en/news/how-much-fish-do-we-consume-first-global-seafood-consumption-footprint-published), esta relação entre consumo e impacto ambiental elevado fica evidente.

O consumo de bacalhau, atum e salmão – peixes muito consumidos em Portugal – afeta este valor elevado, bem como o consumo de carne vermelha, pelo impacto na utilização de recursos naturais para a sua produção. O gráfico em baixo demonstra o impacto na Pegada dalguns destes alimentos (https://www.ciheam.org/publications/190/010_-_Galli.pdf):