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ZERO alerta que Portugal pode e deve aproveitar a retoma da crise para reduzir a pegada ecológica.

A ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, em parceria com a Global Footprint Network, atualiza os dados relativos à pegada ecológica de Portugal.

Se cada pessoa no Planeta vivesse como uma pessoa média portuguesa, a humanidade exigiria mais de 2 planetas para sustentar as suas necessidades de recursos. Tal implicaria que a área produtiva disponível para regenerar recursos e absorver resíduos a nível mundial esgotar-se-ia no dia 25 de maio, um dia mais cedo que em 2019, cuja data foi a 26 de maio (https://www.overshootday.org/newsroom/country-overshoot-days/). A partir daí seria necessário começar a usar recursos naturais que só deveriam ser utilizados a partir de 1 de janeiro de 2020.

Os cálculos são anteriores aos efeitos no consumo de bens e emissões de carbono da pandemia em Portugal. A paragem forçada da atividade económica deverá estar a colocar esta data um pouco mais tarde, constituindo à partida um ganho relativamente a 2019. No atual contexto, esta é mais uma oportunidade de reflexão sobre como podemos contribuir enquanto individuais e sociedade, para uma retoma com uma pegada menor.

Portugal é, há já muitos anos, deficitário na sua capacidade para fornecer os recursos naturais necessários às atividades desenvolvidas (produção e consumo). O mais preocupante é que “dívida ambiental” portuguesa tem vindo a aumentar.

Esta é uma tendência que é urgente inverter, sendo possível tirar partido da atual crise para iniciar este trabalho. Tal é possível com a adoção de novas políticas públicas, e novas práticas por parte de cada um de nós, em particular na área da alimentação e da mobilidade, no sentido de reduzir o impacto da forma como produzimos e consumimos.

Como reduzir a dívida ambiental Portuguesa (e de todos nós)

O consumo de alimentos (32% da pegada global do país) e a mobilidade (18%) encontram-se entre as atividades humanas diárias que mais contribuem para a Pegada Ecológica de Portugal e constituem assim pontos críticos para intervenções de mitigação da Pegada.

Neste contexto, a ZERO sugere em termos de políticas:

  • Apostar numa agricultura de múltiplos outputs e promotora da soberania alimentar (produção de alimentos de qualidade; preservação dos solos, redução da poluição e do uso de água; valorização de serviços de ecossistema) reduzindo progressivamente até à completa eliminação dos apoios a práticas agrícolas assentes num único output – produção.
  • Aproveitar o potencial de redução de deslocações e viagens através do teletrabalho e da realização de eventos habitualmente presenciais, em formato virtual. Muitas empresas, entidades, trabalhadores estão a descobrir o potencial das reuniões virtuais e do teletrabalho, o que poderá vir a ter reflexos positivos no futuro, em termos de ganhos ambientais, sociais e económicos.
  • Investir de forma decisiva na criação de infraestrutura que permita uma muito mais significativa utilização de modos suaves de transporte, em particular incentivando o uso da bicicleta e eventualmente combinados com o transporte público, no sentido de evitar a degradação da qualidade do ar nas cidades para os níveis antes da crise.
  • Regulamentar para que os produtos colocados no mercado sejam sustentáveis. Por exemplo, implementar normas de durabilidade, garantias do direito a reparar e atualizar, de reutilização e reciclabilidade. Estas medidas permitirão criar novas áreas de trabalho qualificado na UE.

Neste contexto, a ZERO sugere em termos de práticas individuais:

  • Reduzir a presença de proteína animal na alimentação: os dados para Portugal indicam que cada português consome cerca de três vezes a proteína animal que é preconizado na roda dos alimentos, metade dos vegetais, um quarto das leguminosas e dois terços das frutas. Aproximar a nossa dieta à roda dos alimentos reduz, de forma significativa, o impacto ambiental associado à alimentação e é mais saudável.
  • Movimentarmo-nos de forma sustentável: não deixar de usar os transportes coletivos na atual situação de desconfinamento, andar de bicicleta, a pé, e claro, reduzir ou eliminar mesmo as viagens de avião substituindo nomeadamente as reuniões por videoconferência.
  • Consumir de forma mais circular: é fundamental mudar o paradigma de “usar e deitar fora”, muito assente na reciclagem, incineração e deposição em aterro, para um paradigma de “ter menos, mas de melhor qualidade”, com um forte enfoque na redução, reutilização, troca, compra em segunda mão e reparação.

O que é a pegada ecológica

Tal como um extrato bancário dá indicação das despesas e dos rendimentos, a Pegada Ecológica avalia as necessidades humanas de recursos renováveis e serviços essenciais e compara-as com a capacidade da Terra para fornecer tais recursos e serviços (biocapacidade).

A Pegada Ecológica mede o uso de terra cultivada, florestas, pastagens e áreas de pesca para o fornecimento de recursos e absorção de resíduos (dióxido de carbono proveniente da queima de combustíveis fósseis). A biocapacidade mede a quantidade de área biologicamente produtiva disponível para regenerar esses recursos e serviços.