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Suspensão da reutilização de manuais escolas demonstra como a sustentabilidade ainda não entrou na agenda política.

A decisão tomada pela Assembleia da República, no âmbito do orçamento suplementar para 2020 de impedir a reutilização de manuais escolares no ano letivo 2020/2021, independentemente dos custos associados, é uma má decisão do ponto de vista ambiental e da sustentabilidade. Ela irá implicar (de forma aproximada):

  • O abate acrescido de 92500 árvores, correspondendo a uma área aproximada de 92 hectares.
  • A emissão acrescida de 1500 toneladas de CO2.
  • O gasto acrescido de 130 milhões de litros de água.

A ZERO considera que esta tomada de decisão demonstra que os partidos políticos (e vários outros stakeholders envolvidos no debate), quando confrontados com um problema, têm uma clara tendência para não ponderar os aspetos da sustentabilidade e avançarem com decisões com total desconsideração pelos impactos que terão em termos ambientais.

Esta postura é ainda mais negativa, quando nem sequer se procurou debater alternativas, que existem, a esta travagem de um processo que finalmente tinha colocado Portugal, após décadas de desperdícios gigantescos de recursos naturais e despesas muito significativas para as famílias, no percurso de outros países da UE onde a reutilização há muito é praticada.

As alternativas

Não questionando que há aprendizagens referentes ao ano letivo atual que não foram completadas e as quais será necessário reforçar no início do próximo ano, existem alternativas viáveis para as consolidar sem pôr em causa a reutilização dos manuais escolares, nomeadamente:

  • Manter a entrega dos manuais para reutilização pelo menos nos anos de mudança de ciclo e no 12º ano;
  • Deixar ao critério das escolas a decisão sobre a reutilização de manuais ou não, noutros anos, porque há certamente disciplinas em que não se justifica a retenção dos manuais e outras em que tal pode acontecer;
  • Manter a entrega dos manuais para reutilização, garantindo às escolas alguns manuais extra consoante as necessidades para trabalho em sala de aula;
  • Manter a entrega dos manuais para reutilização por todos os alunos que possam ter acesso a recursos digitais (que deverão ser assegurados pelo Ministério) e permitir apenas aos alunos que não tem acesso a estes recursos a manutenção dos manuais.

Ainda vamos a tempo?

Partindo do pressuposto que as soluções aqui avançadas possam não ser perfeitas e colocar até algumas dificuldades em termos logísticos (a ZERO não é perita no processo da reutilização de manuais escolares), acreditamos mesmo assim que todos os agentes envolvidos neste debate ainda tenham a possibilidade de corrigir a decisão, contribuindo para maximizar a reutilização, garantindo as aprendizagens, sendo ainda possível encontrar soluções muito mais equilibradas do que aquela que neste momento foi acordada.