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Medidas de forte redução do tráfego automóvel de veículos a combustão são essenciais.

A ZERO apresenta hoje os dados de uma campanha de monitorização de poluentes atmosféricos, nomeadamente de partículas inaláveis (PM10) e dióxido de azoto (NO2), realizada em quatro locais (uma semana em cada local) em áreas com influência do tráfego rodoviário e onde não existem estações de monitorização de qualidade do ar.

Entre os meses de abril e maio de 2019, numa parceria com a Federação Europeia dos Transportes e Ambiente (T&E) e a European Climate Foundation (ECF) em colaboração com a FCT-NOVA e com o apoio logístico da Câmara Municipal de Lisboa, a ZERO realizou uma campanha em Lisboa onde os critérios de seleção dos locais de amostragem foram a forte influência do tráfego rodoviário e a ausência de estações de monitorização incluídas na rede QualAr gerida pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo. Os locais de amostragem foram: Belém, Telheiras/2ª Circular, Parque das Nações e Cais do Sodré/Av. Naus.   

Legislação nacional/europeia

De acordo com a legislação, os valores-limite de proteção à saúde para os poluentes analisados, NO2e PM10, são os seguintes:

 

  Valores-Limite – Proteção à Saúde Humana
NO2 Média anual Horário
40 µg/m3 200 µg/m3

(18 ultrapassagens permitidas num ano)

PM10 Média anual Diário
50 µg/m3 50 µg/m3

(35 ultrapassagens permitidas num ano)

 

Em áreas urbanas, as principais fontes de NO2e PM10são o tráfego rodoviário, com maior incidência nos veículos a gasóleo.

Resultados da campanha da ZERO

Para todos os locais amostrados pela ZERO, e nos mesmos períodos temporais, os dados foram comparados com os resultados medidos (mas ainda não validados) das estações de qualidade do ar da rede QualAr [1]. Para o caso do NO2, os dados foram comparados com as estações de Avenida da Liberdade, Olivais, Entrecampos, Santa Cruz de Benfica e Restelo; no caso das PM10, os dados foram comparados com todas as estações anteriores, exceto Restelo).

Dióxido de azoto (NO2)

Para este poluente, à exceção de Belém, a média horária medida nas zonas de Telheiras/2ª Circular, Parque das Nações e Cais do Sodré esteve sempre acima da média horária medida no mesmo período na estação da Avenida de Liberdade, local onde este poluente tem apresentado as concentrações mais elevadas nos últimos anos entre as estações da rede nacional da qualidade do ar. Todos os valores médios horários de cada um dos locais amostrados foram sempre superiores aos medidos nas estações da rede nacional mais próximas.

A zona de Telheiras/2ª Circular teve uma ultrapassagem ao valor limite horário de NO2(207 µg/m3), medida no dia 27 de março, às 20h. Nenhuma das estações da rede nacional teve qualquer ultrapassagem.

 

 

Locais

 

Datas

Valor médio (µg/m3) Valor máximo (µg/m3) Nr. horas de ultrapassagem ao valor limite
Horário Horário Horário                 (200 µg/m3)
Belém 14/03-20/03 51,5 172,1 0
EQA Avenida da Liberdade 71,8 192,1 0
EQA Olivais 34,7 127,7 0
EQA Entrecampos 43,7 146,5 0
EQA St. Cruz Benfica 46,7 127,3 0
EQA Restelo 28,7 112,2 0

 

 

Locais

 

Datas

Valor médio (µg/m3) Valor máximo (µg/m3) Nr. horas de ultrapassagem ao valor limite
Horário Horário Horário                    (200 µg/m3)
Telheiras/2ª Circular 22/03-28/03 68,3 207,0 1
EQA Avenida da Liberdade 64,5 163,7 0
EQA Olivais 36,5 121,5 0
EQA Entrecampos 42,2 126,6 0
EQA St. Cruz Benfica 53,9 130,5 0
EQA Restelo 23,6 116,0 0

 

 

Locais

 

Datas

Valor médio (µg/m3) Valor máximo (µg/m3) Nr. horas de ultrapassagem ao valor limite
Horário Horário Horário              (200 µg/m3)
Parque das Nações 30/03-08/04 71,2 197,9 0
EQA Avenida da Liberdade 49,6 153,7 0
EQA Olivais 29,6 111,1 0
EQA Entrecampos 46,2 126,3 0
EQA St. Cruz Benfica 38,2 114,9 0
EQA Restelo 19,1 72,3 0

 

 

Locais

 

Datas

Valor médio (µg/m3) Valor máximo (µg/m3) Nr. horas de ultrapassagem ao valor limite
Horário Horário Horário           (200 µg/m3)
Cais do Sodré/Av. Naus 10/04-17/04 60,3 120,0 0
EQA Avenida da Liberdade 46,0 112,9 0
EQA Olivais 22,7 79,9 0
EQA Entrecampos 34,9 93,4 0
EQA St. Cruz Benfica 30,8 70,0 0
EQA Restelo 13,0 51,5 0

 

Partículas inaláveis (PM10)

Nos diferentes períodos de medição, os valores diários (médios e máximos) foram mais elevados nos quatro locais selecionados por comparação com os valores medidos nas estações da rede QualAr, incluindo a estação da Avenida da Liberdade. As zonas de Belém, Telheiras/2ª Circular e Parque das Nações tiveram ultrapassagens ao valor limite diário (50 µg/m3). As ultrapassagens verificaram-se nos dias 16 de março (em Belém, 53,4 µg/m3), 27 e 28 de março (em Telheiras/2ªCircular, 61,5 e 52,4 µg/m3, respetivamente) e 30 de março (no Parque das Nações, 52,5 µg/m3).

 

Locais

 

Datas

Média (µg/m3) Valor máximo (µg/m3) Nr. dias de ultrapassagem ao valor limite
Diário Diário Diário (50 µg/m3)
Belém 14/03-20/03 29,1 53,4 1
EQA Avenida da Liberdade 28,0 46,3 0
EQA Olivais 18,4 34,8 0
EQA Entrecampos 21,1 41,7 0
EQA St. Cruz Benfica 22,9 39,2 0

 

 

Locais

 

Datas

Média (µg/m3) Valor máximo (µg/m3) Nr. dias de ultrapassagem ao valor limite
Diário Diário Diário (50 µg/m3)
Telheiras/2ª Circular 22/03-28/03 40,6 61,5 2
EQA Avenida da Liberdade 25,6 33,5 0
EQA Olivais 19,9 26,0 0
EQA Entrecampos 21,1 25,5 0
EQA St. Cruz Benfica 26,3 35,0 0
 

Locais

 

Datas

Média (µg/m3) Valor máximo (µg/m3) Nr. dias de ultrapassagem ao valor limite
Diário Diário Diário (50 µg/m3)
Parque das Nações 30/03-08/04 36,5 52,5 1
EQA Avenida da Liberdade 21,2 36,0 0
EQA Olivais 14,8 24,3 0
EQA Entrecampos 18,4 24,5 0
EQA St. Cruz Benfica 17,9 28,0 0
         
 

Locais

 

Datas

Média (µg/m3) Valor máximo (µg/m3) Nr. dias de ultrapassagem ao valor limite
Diário Diário Diário (50 µg/m3)
Cais Sodré/Av. Naus 10/04-17/04 30,5 44,7 0
EQA Avenida da Liberdade 16,2 22,4 0
EQA Olivais 10,5 13,2 0
EQA Entrecampos 15,4 19,8 0
EQA St. Cruz Benfica 12,6 16,3 0

Conclusões finais

Apesar do período limitado de amostragem, os resultados das campanhas efetuadas pela ZERO lançam um alerta sobre a qualidade do ar de Lisboa, mostrando que é necessário um acompanhamento em termos de monitorização e acima de tudo de tomada de medidas de melhoria.

Se a Av. da Liberdade tem sempre sido considerada como a área mais poluída da cidade, ficou claro que o Parque das Nações, que nos dois poluentes monitorizados apresenta a maior diferença em relação aos níveis da Av. da Liberdade, é a zona que apresenta problemas mais sérios de qualidade do ar, com uma elevada probabilidade de exceder consideravelmente os valores-limite fixados pela legislação.

A zona da 2ª Circular junto a Telheiras e Cais do Sodré são igualmente preocupantes por terem níveis também consideravelmente mais elevados, sendo que Belém apresenta níveis mais baixos que a Av. da Liberdade no que respeita ao dióxido de azoto, mas similares no que respeita às partículas inaláveis.

Efetivamente, os níveis de tráfego automóvel têm vindo a aumentar consideravelmente, em algumas zonas do concelho de Lisboa nomeadamente em áreas residenciais e de serviços (como é o caso do Parque das Nações), as quais apresentam níveis de PM10 e NO2 já muito significativos e similares aos níveis medidos no centro da cidade.

A zona de Telheiras/2ª Circular, sendo um eixo rodoviário de acesso ao centro da cidade com elevado tráfego (ligeiros, mas também pesados) tem sido mal caracterizada em termos de qualidade do ar, sobretudo nas ligações a outros eixos periféricos da cidade (CRIL, CREL, IC19, Eixo Norte-Sul).

Belém e Cais do Sodré são locais próximos da zona ribeirinha e por isso mais beneficiados pelo relevo e ação dos ventos; no entanto, verifica-se também um aumento do tráfego rodoviário devido ao turismo, o que se pensa ter um contributo significativo para os níveis de poluição local.

Apesar de algumas medidas implementadas para reduzir a circulação de veículos mais antigos e poluentes no centro da cidade, através das Zona de Emissões Reduzidas (ZER) e se terem verificado algumas melhorias dos níveis dos dois poluentes, elas são ainda insuficientes para reduzir a poluição.

A campanha de monitorização realizada pela ZERO foi de curta duração (de apenas de alguns dias) não tendo sido possível fazer uma avaliação mais rigorosa e comparável, recomendando-se um olhar para valores já analisados pela ZERO no que respeita à da Avenida da Liberdade em 2019 [2]. Por agora é impossível ainda avaliar o impacte da medida importantíssima relativa ao abaixamento do custo e uniformização dos passes na área do município e Área Metropolitana de Lisboa. Porém, é claro para a ZERO que medidas de incentivo têm de ser aplicadas em conjunto com medidas de penalização do tráfego rodoviário e que estas últimas ainda são insuficientes.

Recomendações da ZERO:

  • Aumentar fortemente a exigência e o cumprimento das regras das Zonas de Emissão Reduzidas de Lisboa;
  • Legislar urgentemente níveis reduzidos para as emissões de partículas a controlar pelos centros de inspeção para garantir o combate à fraude de quem retira os filtros dos veículos a gasóleo;
  • Considerar a implementação de uma Zona de Emissões ZERO na cidade de Lisboa, onde seja autorizada apenas a circulação de veículos sem emissões (mobilidade suave e veículos elétricos);
  • Definir restrições ao tráfego rodoviário a implementar em outras áreas da cidade, onde pela sua tipologia como área residencial e de serviços, a população possa estar mais exposta aos impactos na saúde (como o Parque das Nações);
  • Rever a regulamentação sobre a logística urbana, com horários para entregas fora dos períodos de ponta;
  • Implementar medidas de condicionamento de tráfego em função de episódios de poluição.

Efeitos dos poluentes

O dióxido de azoto em concentrações elevadas causa efeitos na saúde, desde a irritação dos olhos e garganta, até à afetação das vias respiratórias, provocando diminuição da capacidade respiratória, dores no peito, edema pulmonar e danos no sistema nervoso central e nos tecidos. Os grupos mais sensíveis são as crianças, os asmáticos e os indivíduos com bronquites crónicas.

As partículas com um diâmetro aerodinâmico inferior a 10 µm (PM10) são as mais nocivas, pois penetram no aparelho respiratório, podendo as mais finas atingir os alvéolos pulmonares e interferir nas trocas gasosas, contribui para o desenvolvimento de doenças cardiorrespiratórias, e até cancro do pulmão.