Como distinguir factos de manipulação quando o tema é o clima
A ciência climática é clara: as alterações climáticas são reais, são causadas pela atividade humana e estão a acontecer agora. Ainda assim, é frequente encontrar conteúdos que parecem pôr isso em causa.
Não é coincidência. A desinformação climática segue um padrão e conhecê-lo ajuda a analisar melhor a informação que nos chega todos os dias.
Esse padrão tem nome: FLICC. É o acrónimo, em inglês, das cinco técnicas de desinformação mais usadas contra a ciência do clima.
F — Fake Experts | Falsos Especialistas
Apresentam-se vozes com aparência de autoridade científica mas sem credibilidade na área ou com ligações à indústria. Criam a ilusão de que há debate onde não há.
Exemplo: Um geólogo a pronunciar-se sobre modelos climáticos como se a sua especialidade o habilitasse para tal.
L — Logical Fallacies | Lógica Falha
Argumentos que parecem razoáveis à primeira vista mas não resistem a análise.
Exemplo: “O clima sempre mudou ao longo da história da Terra” — verdade, mas que ignora a velocidade e a causa do que está a acontecer agora.
I — Impossible Expectations | Impossibilidade de Provar
Exige-se à ciência climática um nível de certeza que não se pede a mais nada, como forma de justificar a inação.
Exemplo: “Enquanto os cientistas não tiverem a certeza absoluta, não podemos tomar decisões.”
C — Cherry Picking | Seleção Seletiva de Dados
Usa-se um dado real, retirado de contexto, para construir uma narrativa enganosa.
Exemplo: Citar um ano em que as temperaturas desceram ligeiramente para sugerir que o aquecimento global parou, ignorando a tendência de décadas.
C — Conspiracy Theories | Teorias da Conspiração
Quando os argumentos não convencem, questiona-se a integridade de quem os apresenta.
Exemplo: “Os cientistas manipulam os dados porque dependem de financiamento público para as suas investigações.”
Reconhecer estas técnicas não exige ser especialista em clima — exige apenas atenção. Antes de partilhar um conteúdo que questiona a ciência climática, vale a pena perguntar: que técnica está a ser usada aqui?
O projeto InfoClima, desenvolvido pela ZERO em parceria com a Escola Superior de Comunicação Social e a Universidade Lusófona, estuda a desinformação climática em Portugal e ajuda a identificar estes padrões.