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Portugal deve recorrer a fontes de energia renovável verdadeiramente sustentáveis; queima de biomassa na central do Pego pode ter emissões de dióxido de carbono superiores a um por cento do total do país

Numa altura em que falta menos de uma semana para o encerramento do concurso público para atribuição da capacidade de injeção na Rede Elétrica de Serviço Público (RESP), a eventual conversão da central termoelétrica a Carvão do Pego para biomassa continua a ser motivo de grande preocupação. Por um lado, irá agravar de forma muito significativa os problemas de escassez de madeira [1] para a indústria, tal como referido num relatório recentemente divulgado pela ZERO [2], e, por outro, contribuirá fortemente para recolocar carbono na atmosfera, traduzindo-se num aumento de emissões de gases com efeito de estufa (GEE) ao reduzir o stock de carbono na floresta.

Com o objetivo de medir o eventual impacto, a ZERO fez um pequeno exercício relativamente à possibilidade de a opção selecionada pelo concurso público incluir a manutenção em funcionamento da central termoelétrica do Pego, com alteração no combustível utilizado, passando a ser alimentada por biomassa florestal. Para tal, foi considerada a opção pellets torrificados (cujas características em termos de utilização são aproximadas ao carvão), com origem em alegados resíduos florestais recolhidos num raio de atuação de no máximo 60 quilómetros, para manter a central operando a um fator de carga anual de 10% – em linha com o defendido publicamente pela Trustenergy, atual detentora da maioria do capital da central.

Como resultado, considerando que, para um fator de carga de 10%, será obtida uma produção a rondar os 512 GWh (GigaWatts-hora) de produção elétrica anual, serão necessárias cerca de 260 mil toneladas de pellets torrificados.

Para a produção das pellets torrificados, são necessárias cerca de 465 mil toneladas de biomassa florestal, que exigem entre 13.600 a 18.600 viagens de camião para o seu transporte. Acresce que, num processo de transformação industrial, a produção das referidas 260 mil toneladas de pellets torrificados exige um consumo de energia na ordem dos 46 mil MWh. Numa análise comparativa, é um valor superior aos 45 221 MWh consumidos no setor doméstico do Concelho de Abrantes em 2020 [3].

Numa época em que a emergência climática exige que a Europa tenha ambição e faça uma transição energética para fontes de energia verdadeiramente renováveis de forma a reduzir as emissões de GEE, contribuindo para o cumprimento de meta de sobrevivência de 1,5ºC, continuar a apostar numa fonte energética que não é verdadeiramente renovável porque vai colocar na atmosfera carbono que foi sequestrado pela floresta, é um contrassenso.

Contas feitas, a opção de utilizar a Central do Pego a biomassa florestal irá contribuir com aproximadamente 600 mil toneladas CO2/ano, que se farão sem dúvida à custa também de madeira de qualidade, considerando o cenário nacional de utilização insustentável de biomassa para produção de eletricidade. Tal representaria uma percentagem de cerca de um por cento das emissões nacionais com tendência percentual crescente, dada a expetativa de redução de emissões nos próximos anos.

 

Está na hora de Portugal ser ambicioso e passar do papel à prática

A ZERO defende que a concessão deste ponto de ligação deverá ter em consideração somente projetos que resultem da utilização de fontes de energia verdadeiramente renováveis e que de forma alguma coloquem a possibilidade de uma fase de transição com recurso a biomassa – esta não é nem será de forma alguma renovável devido à escassez de biomassa florestal residual em território nacional.

Espera-se que o Governo não se esqueça do que referiu em 2019 quando assumiu que vai inverter o sentido de marcha no que diz respeito à estratégia para a biomassa em Portugal, assim como tenha em consideração os compromissos com a Lei de Bases do Clima, recentemente aprovada na Assembleia da República, que é bem clara quanto à descarbonização do sistema electroprodutor.

As políticas mal orientadas a nível da União Europeia e a nível nacional, com uma elevada subsidiação, que acaba por ser paga pelos consumidores através de faturas de energia, resultam assim em impactes devastadores: perda de qualidade do solo, capacidade de armazenamento de água, biodiversidade e cobertura de árvores, e, emissões de gases que degradam a qualidade de vida e com efetivo contributo para o efeito de estufa.

 

 

Notas:

[1] https://zero.ong/dia-internacional-de-acao-sobre-a-biomassa-zero-alerta-para-o-erro-de-converter-a-central-do-pego-para-queimar-biomassa/

[2] Versão em português: A Biomassa em Portugal (https://zero.ong/wp-content/uploads/2021/10/A_Biomassa_em_Portugal.pdf)  

Versão em inglês: Big Biomass in Portugal: (https://zero.ong/wp-content/uploads/2021/10/Big_Biomass_in_Portugal.pdf)

[3] Valores da provisórios da DGEG para 2020 https://www.dgeg.gov.pt/media/tsspjzwt/dgeg-eca-2020.xlsx